07/12/2013

Entrelinhas




eu queria saber
se você entendeu
alguma coisa
do que leu.

porque continua
porque continua
porque continua
porque continua

entrelinhas, amigo.
entre.
amigo, entre.

caso contrário,
todo verso é cova,
toda poesia é cemitério.


Eliano Silva





14/10/2013



O verso
Não
Coube
Entre
A margem.

A vida
Não
cabe
Nesta
Noite.

(Eliano Silva)    



13/10/2013

Sinto Saudades




Sinto saudades
Quando te deixo,
Quando não vejo,
Quando não está
Com seus carinhos
E confusões.

Sinto saudades
No momento em que te beijo,
imaginando o momento em que
Nossos lábios se separarão.


(Eliano Silva)




04/10/2013

Deus não tem religião

http://www.stanleycolors.com/2013/09/imagine-john-lennon/

Muçulmanos, hindus,
Batizados, pagãos,
Católicos, judeus,
Protestantes ou não.

Pelo fim da guerra santa
Por Deus, sejamos ateus.

(Eliano Silva)

02/10/2013

01/10/2013

Olho por olho





Se eles têm
Tanques e canhões,
Nós temos
Lápis, papel e violões.

(Eliano Silva)

30/09/2013





Em dias chuvosos
Eu renunciaria o mundo inteiro
Pra ficar contigo
Numa cama de solteiro.

Em dias quentes,
Por outro lado,
Meu infinito é percorrer
O seu corpo suado.

(Eliano Silva)



26/09/2013

fotografia de wagna Cavalcante

As estrelas.
Parece que me olham.
Parece que imploram.

E eu aqui
Fazendo análise sintática.

(Eliano Silva)


18/09/2013

Rock In Rio


Por: Eliano Silva


Em 1985 o Brasil cantou mais alto, o dia nasceu feliz. Era ano de quebra de correntes, de fim da Ditadura Militar que assombrava o país desde 1964. Findava um modo de governo antidemocrático, que prendeu, castigou, torturou e matou todos os que expressaram suas opiniões e pensamentos contra o regime. Artistas, jornalistas, estudantes etc. foram mortos ou exilados. Mas disso, todos já sabem. De modo que o meu interesse é dizer outra coisa: É nesse contexto histórico que ocorreu o primeiro festival musical/cultural conhecido como Rock in Rio, Rock and Roll no Rio de Janeiro (que posteriormente seria exportado para outros países), um evento que contribuiu para a consolidação do rock nacional e estreou no Brasil grandes shows de bandas internacionais como AC DC, AC/DC, Iron Maiden, Ozzy Osbourne, Queen etc.

 Esses dois fatos se interligam no momento em que a voz do povo foi representada pelas vozes roucas dos cantores e as guitarras distorcidas que ecoavam na “Cidade do Rock”. O Povo queria votar de novo nos seus representantes, um ano antes, foi à rua gritar Diretas já e em 85 teria sua liberdade de expressão de volta. Queriam “Um novo tempo apesar dos castigos”.

O Rock in Rio desse ano teve essa carga ideológica além de tudo. Foi uma festa em que se comemorou o fim da fiscalização de pensamento.

Com isso, SIM, o primeiro Rock in Rio, trata-se de um fato histórico importante e de natureza ROQUEIRA. Com o passar do tempo, o evento foi se adequando às tendências musicais que havia em cada ano de sua realização, acrescentando e agregando novos estilos a ponto de hoje se discutir a legitimidade de seu nome. Nas edições seguintes àquela da transição política brasileira, se apresentaram artistas pop que, uma boa parte do publicou estranhou e estranha. Isso é fato: O Rock in Rio não se trata de um evento apenas de rock, mas um dia, foi.

Os mais desinformados (porque um pouco de informação para quem se acha intelectual é mais prejudicial do que conhecimento nenhum para os ignorantes) irão dizer, que desde a primeira edição o Rock in Rio não teve apresentações exclusivamente de rock, alegando que artistas como Gilberto Gil, Moraes Moreira, Lulu Santos, Ivan Lins e Ney Matogrosso, participaram. Esquecem que rock and roll é antes de tudo, atitude. E Atitude esses artistas tinham de sobra.

Gil é um camaleão da música brasileira, e seu show em 85 teve mais rock and roll do que nunca. O mesmo se aplica aos demais artistas que hoje são descartados quando se fala em rock, visto que tocam MPB à base de instrumentos menos barulhentos do que guitarras nervosas, mas lembrem-se: há 28 anos, esses caras eram jovens e a juventude queria fazer barulho, muito barulho mesmo. E fizeram. Tocaram rock.


A verdade é que o evento se transformou num investimento milionário e o retorno financeiro depende dos shows musicais que estão na moda. Por isso a crise de identidade. No mais, apesar da paráfrase “rock in rio”, o que ocorre é “pop in rio”, Música comercial no Rio de Janeiro.


A seguir, algumas apresentações do Rock in Rio em 1985. Quem achar que isso não é rock, precisa ter umas aulinhas  sobre música.


"O segurança me pediu o crachá
Eu disse: nada de crachá, meu chapa 

Sou um escrachado".



"No novo tempo, apesar dos perigos
Da força mais bruta, da noite que assusta, estamos na luta".


"Deus Salve a América do Sul".



08/09/2013

O Quarto







É preciso conhecer cada detalhe do nosso quarto. Cama, telhado, porta e retrato. Cada poeira sobre outra poeira na cabeceira pescando peixe do livro empoeirado. Um quarto pode ser poesia, artéria, um olho que olha um corpo, obra de arte. Um quarto pode ser um lago, largo, calmo e profundo, processo, vida em rascunho. De tudo um pouco para tudo isso, uma janela curvada da parede para alma, assombro, incursão, labirinto, um mundo 
iniciático.

(Claudio Castoriadis)


01/09/2013

Bagunça


Te mostro meus manuscritos,
Minha caligrafia confusa.
(Adoro seu olhar tentando me entender)

Você reclama da bagunça,
Dos papeis jogados ao chão (amaçados)
Mas foi você que me bagunçou.

Você pergunta:
- O que tanto escreve aí?
- Escrevo-me.

(Eliano Silva)

27/08/2013

Sarau no CAMEAM / UERN

                                                                                                                  Por: Eliano Silva

Hoje (27/08/13) teve poesia no campus, não que frequentemente não haja alguém se apresentando nos intervalos culturais, seja com música, dança, teatro etc., mas hoje tivemos um recital do melhor modo despojado (no bom sentido do termo) que poderíamos ter, com direito a imprevistos e tudo mais (por motivos técnicos não houve música, mas onde faltou em acordes e melodia, transbordou em palavra e aquele tipo de palavra que constrói).

Poetas e simpatizantes da poesia deram o ar da graça e empunharam o microfone, contemplando o público com poesias autorais e de autores consagrados, como Bukowski, Ferreira Gullar, Edgar Allan Poe, Hilda Hilst etc.

O sarau foi show!


Dentre os poetas e amantes da poesia, estavam:


Yuri Hícaro , poeta, recitando poesias do seu livro recém publicado, Um canto conforme a noite.

Murilo Costa Oliveira, poeta.

Alex Moura, poeta e companheiro de curso.

Ronaldo Santos, poeta.


Adriana Cruz, poetiza. 

Taiza Barros, poetiza.

Caroline Pessoa, escritora.

e eu! rsrs


Muitas outras pessoas participaram... e viva a poesia.

26/08/2013

Pseudo

Na Natureza Selvagem  


Veja o menino
Querendo ser Rimbaud,
Walt Whitman, Rousseau.

Veja o menino
Tocando os rocks e blues
Que sobraram dos anos 70.

Veja o menino
É provável que não
Saiba o mínimo que pensa saber,
Mas sabe que “ser” é o x da questão.

Fã de Beatles e cinema americano
Juntou dinheiro pro mochileiro, visitar o túmulo
Do Che, demora horas filosofando
Se contradizendo.
Nos tempos de outrora
Se perdendo em seu próprio templo.

Quem é você?
O que queres?
Quem é você?
O que queres?
O que tem nesse caderno?
O que vais fazer?
Se não tiveres a atenção

Que queres?

(Eliano Silva)

23/08/2013

Por capricho



Eu escrevo até quando eu quero!
É fácil escrever
Quando você
É bicho solto no mundo,
Quando se é o mais vagabundo que puder.
Mas quando se diz
“vou escrever uma poesia”
Pronto, durante todo o dia,
Nenhum risco sequer.
Escrever por querer é complicado,
Escute música, leia livros e nada sairá
além de papel rabiscado.
Há dias que basta vê
Uma pedra no caminho, um passarinho.
E há dias como esse,
Que a falta de inspiração
De oração em oração
Preenche a folha pálida.
É quando não me baixa o poeta,
Que minha alma não se aquieta.                                                                                              
Risco todo o caderno,
Subo e desço, vou e venho.
E se não acho as palavras pra rimar no poema,
Acho um poema pra rimar as palavras que tenho.

                                    (Eliano Silva)


20/08/2013

Só eu sei de ti




Entardeceu,
Deu uma chuva fraca,
Como aquela que te fez ficar em casa outro dia.
Te convenci que o melhor era ficar ali,
Vendo os pingos da chuva escorrerem pelas folhas das plantas.
Quando trovejou, você fechou os olhos.
E eu te abracei,
Só eu sei de ti.
Eu toquei aquela música
Você sorriu e cantou junto.
Vestida com uma camisa minha.
Você dormiu, eu entendi

Que só eu sei de ti.

(Eliano Silva)

12/08/2013

Abandonou
 o romance que lia
e foi viver
um romance.




                Eliano Silva

09/08/2013

A Morte do Pescador


Por Eliano Silva

Há duas mortes: Uma, apenas os mais sensíveis percebem; a outra, o cortejo sinaliza até quem se recusa a saber. Existe a morte que é eterna e a que se morre cotidianamente.
“Jorge já estava morto ou não?”


Eis um livro em que as imagens são rapidamente projetadas na mente de quem o lê, ilustrando assim, a história de um pescador que “morre antes de morrer”. A narrativa de Mário Gerson, adjetivando cada movimento, com um lirismo aguçado, no durante o passar das páginas desta pequena novela, prende o leitor desde o prólogo (escrito pelo próprio autor) até a última página. É impecável.
A obra foi lançada em 2008, pela editora Queima Bucha, porem, somente agora a tive em mãos, quando por um acaso bom, desses que ocorrem para a nossa sorte, encontrei enquanto organizava os livros do BALE (Biblioteca Ambulante e Literatura nas Escolas). Li num suspiro, mas a inquietação dura até o exato momento, em que escrevo esse meu comentário. Sabe aqueles escritos que lhe dá uma porrada na cara? A Morte do Pescador é assim.











   

01/08/2013

Baixe a obra completa de Machado de Assis



Em homenagem ao centenário de morte de Machado de Assis, a biblioteca digital pública do MEC em parceria com o Núcleo de Pesquisa em Informática, Literatura e Linguística (NUPILL) da UFSC, disponibilizou a obra machadiana em pdf e em html grátis e seguro.
Clique aqui para ter acesso a obra completa de Machado de Assis.








29/07/2013

Por que Letras?




Frequentemente me dirigem aquelas velhas indagações “por que você cursa Letras?” e depois “você quer ser professor?”. Essas perguntas são feitas sempre espantosamente, seguidas de um ar pejorativo, com a mesma tonalidade de quem pergunta “você que ser pobre pra sempre?”.

Bem, o espanto é compreensivo, considerando a quantidade de leitura que nós, estudantes de Letras, necessita fazer, que no final da graduação, só nos servirá para garantir uma bagagem de conhecimentos que vai além do que é importante numa sociedade materialista, vai nos proporcionar um senso crítico chato, eu diria, a ponto de não nos satisfazermos com qualquer meia verdade.

É loucura mesmo essa coisa de ter que ficar investigando a Língua, que nada mais é do quê o veículo e a morada do homem. Aliás, língua essa que começamos a entender na escola com os professores, “que são pessoas que não tiveram a competência de ir trabalhar num escritório, anotando recadinhos e foram se dedicar à sociedade através da educação”, pobre destino dos alunos de Letras na visão de quem me pergunta por que eu não tentei vestibular pra algo melhor.


Mesmo assim com essa triste realidade de ter que se dedicar de corpo e mente à busca pelo conhecimento (que não se limita a conhecimento linguístico), ainda existem loucos, como eu, que em meios a tantas opções optou por Letras, por não se encaixar nos modelos de vida metódica, seca e promissora dos “homens de escritórios”, por não conseguir dormir sem ler pelo menos um parágrafo de uma obra literária e querer usar isso a seu favor na sua trajetória acadêmica, e depois transformar seus conhecimentos em ensinamentos que talvez sejam úteis para a sociedade.


Por fim, respondo com um lago sorriso “sim, Curso Letras” e para causar maior inquietação ou dó em quem me pergunta, digo com satisfação “sim, quero ser professor” em seguida, eu, inquieto e com pena, penso “pobre é você com todo esse dinheiro”.


(Eliano Silva)

22/07/2013

A Revolução dos Bichos




Era impossível distinguir, quem era homem, quem era porco.

“Proletários, uni-vos”, esse era o pensamento marxista sob qual o velho Major a reuniu numa noite os demais animais da Granja Solar para uma reunião em que ele falou do seu sonho de ver os bichos vivendo de maneira igualitária e livre dos maus-tratos do homem. Segundo o velho porco, era possível libertar-se da exploração humana, bastava se organizarem em uma revolução, A Revolução dos Bichos.

Os animais daquela granja a partir de então, compartilharam do mesmo anseio e após a morte de Major, pequenos atos revoltosos, ainda tímidos, se deram frequentemente até explodir a revolução. O fazendeiro Jones e sua família foram expulsos e teoricamente os animais estavam livres para viver com dignidade.


Entretanto, os porcos, em especial dois jovens barrões, Bola-de-Neve e Napoleão, que se apresentavam como os mais inteligentes, assumiram a liderança da nova sociedade, e, reforçando a teoria de quê o poder corrompe o ser, um dos dois porcos que se mostra um tremendo mau caráter, e faz de tudo para ter o poder total e a partir de então impor aos demais animais o seu governo totalitário.



A Revolução dos Bichos foi publicada pós-guerra, em 1945, por George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair e trata-se de uma sátira que atinge em cheio o modelo soviético sob a ditadura Stalinista. É indispensável para total compreensão da obra que seja feita uma retomada histórica acerca dos fatos protagonizados por Stalin e Trotsky, que aparecem na trama nas figuras de Napoleão (Stalin) e Bola-de-Neve (Trotsky). E quaisquer semelhanças entre os acontecimentos reais dessa época e os fatos decorrentes naquela granja são pura genialidade do escritor que sem desfaçar compara porco com ditador, cachorros raivosos com soldados, granjas com nações, corvo com cristianismo e, cavalos, ovelhas, galinhas, burros com a classe proletária. 

(Eliano Silva)

17/06/2013

O jingle de uma campanha campanha de caráter capitalista se torna hino dos protestos contra a corrupção.


Ironia se faz com O Rappa. "Vem pra rua" é a música da campanha criada pela FIAT para a Copa das Confederações FIFA 2013, interpretada pelo vocalista da banda O Rappa, Falcão. Entretanto, a mesma é a trilha sonora perfeita para as manifestações (de certa forma, anti-copa) decorrentes em todo o Brasil.
O jingle de uma campanha de caráter capitalista se torna hino dos protestos contra a corrupção.


...Sai de casa, vem pra rua

Pra maior arquibancada do Brasil

Oooo, vem pra rua

Porque a rua é a maior arquibancada do Brasil.





(Eliano Silva)

30/03/2013





Eu não consigo

ficar feliz,
se você não me levar
consigo.


(Eliano Silva)


04/03/2013

Vagina



poeta 

Vagina, pênis, ânus
Vagina e pênis
Pênis e ânus.
Pênis e vagina. De novo?
Pênis e pênis. Como?
Pênis e ânus.
E vagina?
Vagina e vagina. Onde?
“Pênis”.
Ânus e pênis e pênis.
Tudo de novo e trocado.
Vanis, Penus, agina,
Quantas vezes quiser.


(Ronaldo Santos)

01/03/2013

Libertinagem



Que bom ter
O que fazer
E não fazer.
E se fizer,
Por puro prazer.

Que bom ser
O que eu sou
E para isso
Não pedir favor.


Elilson José Batista

13/02/2013



Nada de substantivo.
Somente o verbo,
a pragmática.

Já usamos muito o amor.
Está na hora de amar.


(Eliano Silva)

11/02/2013

Vestígios



Tinha vestígios de arte na calmaria.
Tinha o eco do silêncio
a sinfonia da poeira repousando sobre os livros

Tinha a penumbra

Tinha uma garrafa de vinho
um pardal levando gravetos pro seu ninho
Tinha um chambre seu

Tinha Quintana
Tinha Neruda
Tinha Caio Fernando Abreu

Tinha uma lenta cronologia
eu pensei que era tédio
mas era poesia

(Eliano Silva)

09/02/2013



Diz-se que o tempo
é quem reestrutura,
anestesia, restabelece,
mas o tempo, 
quem cura?


(Eliano Silva)

06/02/2013

Soneto Errado


O lento desenho percorrido
do seu viçoso corpo tremente,
balbucia no leito, demente,
indícios do gozo no gemido.

O brilho da pele descoberta
molhada de suor e saliva,
a língua inquieta, instintiva,
explora-a enquanto lhe desperta.

Com o ritmo incerto do rangir,
o prazer dilata e umedece,
os pelos que se põe eriçados.

A noite se deixa interagir,
como se o amanhã não houvesse,
no tempo e espaço ignorados.

(Eliano Silva)                                                                                        

05/02/2013


         Eu sou um
 viciado físico
          e a dependência
   é de você
                           eu preciso
                           te cheirar
                         te beber
                         te tocar

                         te comer

(Eliano Silva)

04/02/2013

A(mor)vião















Não me acostumo com o avião,
Que faz a gente voar,
Que tira a gente do chão,
Que faz a gente chegar,
Que faz a gente partir,
Na partida, a gente chorar,
Na chegada, a gente sorrir,
Na turbulência, a gente temer,
Ter frio na barriga ao embarcar,
Na queda, a gente morrer,
Ou gravemente se machucar,

O amor é um avião.

(Eliano Silva)                                                                                                                  

02/02/2013




Não gosto da possibilidade.
Eu gosto é da certeza.
Do fato consumado na mesa.



Eu gosto do gosto amargo do café.



A função em funcionamento.
A movimentação em movimento.
O amor amando, caramba!



(Eliano Silva)

26/01/2013

O poeta Antonio Francisco.

  Ao lado do poeta Antônio Francisco 



Falamos sobre muitas coisas, mais ele do que eu, porque qualquer pessoa se torna monossilábico ao lado de quem tem o dom da contação de estórias como este senhor que planta roça e se locomove de bicicleta e é genial. Dizia ele "A amizade é a chave que abre a porta do castelo onde mora o coração".

Ele ocupa a cadeira de número 15 na Academia Brasileira de Literatura de Cordel, a mesma do saudoso Patativa do Assaré. Tem cerca de 30 folhetos e é autor de obras como: Dez cordéis num cordel só, que já foi abordada em vestibular.

Antônio Francisco disse que larga seus livros pela a casa, ao alcance de todos, e quando lhe perguntam se não tem medo de que alguém os roubem, ele responde que teria o maior prazer em dizer que na sua terra se ler tanto que se rouba livros.

No vídeo a seguir, ele declama: O ataque de Mossoró ao bando de Lampião.


06/01/2013

O casal arrumando a casa







Amor, tô arrumando a casa
Cuida dos gêmeos pra mim

sei fazer aquela comida,
tô prontinha pra casar, 
faço tudo direitinho

Que cor serão essas paredes? 
que tal se aqui ficar o sofá?
a TV bem alí!

(Eliano Silva)


Walquiria

Fernando Júnior, escritor potiguar http://ffbjr.blogspot.com.br/

por Eliano Silva

Conheço Fernando Júnior já faz algum tempo, desde 2008 precisamente. Eu estava no ensino médio, prestes a ter a primeira aula de filosofia do ano letivo e  já estava entediado só em imaginar o que vinha pela frente, pensava em não assistir a aula, pois durante toda minha vida escolar percebi que disciplinas como essas (filosofia, artes...) na maioria das vezes não tiveram seu devido respeito, nem pelos alunos, muito menos pela escola, e sempre eram ministradas pelos piores professores, que nada sabiam sobre arte ou filosofia.
 Porém, naquela tarde, eis que surge na sala, um baixinho de cabelos compridos, parecendo mais aluno do que professor, pedindo silêncio porque ele iria começar a aula. “Essa eu quero ver (risos)” falei pra mim mesmo.
  A aula começou e eu estava comprometido em observar cada gafe que aquele menino cometesse, seria um prato cheio pra quem gostava tanto de criticar como eu naquela época. Mas por ironia ou por competência do jovem professor, eu estava tendo a melhor aula que já tivera até ali e estava difícil achar motivo para falar mal daquele cara tão entusiasmado e tão apaixonado por aquilo que fazia. Até então, eu nunca tinha visto alguém com aquela jovialidade e plena convicção do que dizia, era uma segurança e uma desenvoltura, que pra mim eram novidades. Em um dado momento, eu desisti de querer criticar, aliás, eu esqueci, fui tomado por seu talento, inundado pela paixão com que aquele professor era professor. Desde então, eu soube que Júnior era uma pessoa iluminada, e merecia atenção de todos acerca de tudo que ele fizesse.

 Agora tenho em mãos Walquiria. E o que tenho a dizer dessa novela? Poderia resumir em uma palavra: apaixonante.

Quem me ler poderá achar que eu estou querendo agradar o autor, considerando a admiração e a amizade que eu o tenho. Mas não. Deveras eu iniciei a leitura com o detector crítico ativado, o mesmo de há cinco anos no início daquela aula de filosofia, afim de elaborar uma resenha que que condissesse com o conteúdo da obra em questão. E vejam só! o filme se repete, em dado momento, eu esqueci que estava lendo, viajei na leitura, na trama, na cultura cigana, no mundo de Walquiria. Desisti de querer criticar e li simplesmente e, gostei.

O autor nos leva dos sarais ciganos de noites estreladas e violões aos boleros nas gafieiras do Rio de Janeiro.
 Ao lermos essa obra, somos levados a refletir sobre um grande dilema: “desfrutar o momento ou cuidar do amanhã?" até que ponto uma tradição cultural deve ser respeitada e seguida?
Para Fernando Júnior ficou claro, até quando a obediência dessa tradição não impedirá de sermos felizes. E é através de uma personagem que tem desejos imensos que ele nos diz.

É um livro repleto de intertextualidade, que reforça o que o autor quer dizer, e torna-o mais dinâmico. A influência de Glória Perez é notável.

O texto é bem escrito, proporcionando uma leitura gostosa, que pode ser feita de uma vez, tomada em uma só dose. O tempo que você ficará em silencio refletindo sobre a obra é maior do o que levará para ler. Júnior foi capaz dessa façanha.
Fazendo minhas as palavras da professora Maria Lúcia Pessoa Sampaio, Valeu a pena ler Walquiria.




"A vida é um intervalo finito de duração indefinida[...] O futuro é o tempo que nos resta: finito, porém incerto" 
Fernando Figueira Barbosa Júnior



05/01/2013

Entorpecida 
por essa ideia vencida
de liberdade

Em terra de cego quem tem os dois olhos
tropeça na ignorância
A reclusão travestida de libertação

Põe no tronco e açoita
Deixa marcas no dorso




(Eliano Silva)

02/01/2013

Entrevista com Mia Couto

Mia Couto é um escritor moçambicano que faz literatura em português. As suas obras são caracterizadas por forte identidade cultural de seu país e é nesse aspecto que se assemelha com a literatura brasileira. Nesta entrevista, ele fala sobre a influencia de Guimarães Rosa em seu texto.



Grande Sertão: Savana

                                                                                                por João Correia Filho, De Maputo

Quando Guimarães Rosa começou a influenciar a sua obra?

Depois que escrevi meu primeiro livro de contos, vozes anoitecidas (1987). Rosa tinha feito uma espécie de recriação do português, o que me tocou muito, porque havia na época uma necessidade quase existencial dos escritores moçambicanos em se verem livres de um português que já não lhes servia, que era uma espécie de vestuário que tinha sido feito à medida de outra cultura, já um pouco desajustada, uma espécie de um termo fabricado com tecido e padrões que não tinham absolutamente a ver com a realidade moçambicana. E nós sabíamos que o Brasil havia feito isso há mais de dois séculos, havia vencido essa briga para tornar sua língua mais plástica, mais adequada, mais próxima da oralidade. Aliás, é justamente isso que Guimarães faz, ele abre a porta às vozes, aquilo que está latente na oralidade de seu país.

Como foi o primeiro contanto com a obra dele?

O escritor angolano Luandino Vieira havia dito numa entrevista que tinha sido marcado pela obra de Rosa. Era um autor que eu não conhecia, pois estávamos em guerra e tínhamos pouca ligação com o Brasil. Só fui conhecer sua obra um ano depois, em 1988, quando um amigo brasileiro trouxe fotocópias de uns textos do Rosa, entre as quais estava A terceira margem do rio(do livro Primeiras Estórias ,de 1962). Foi um abalo sísmico. A uma certa altura eu não o leio, sou atirado para fora da página, começo a escutar vozes e tenho de regressar à página como se de fato aquilo que eu encontrei estivesse fora da página, que é este o local da oralidade. Rosa foi capaz de deixar que a lógica da escrita fosse levada a um outro tipo de lógica. Esse é o grande achado. Não saí igual depois de ler aquele texto e, quando escrevi meu segundo livro, Cada homem é uma raça (1990), já estava muito marcado por esse contato, por esse diálogo.

A oralidade de sua obra tem a ver com a dele?

Aqui em Moçambique não é possível fugir da oralidade. Posso dar vários exemplos em que as pessoas podem discutir a coisa mais sagrada e mais séria do mundo, economia, por exemplo, mas o fazem contando isso com histórias, com aquilo que são os conceitos da oralidade, e não estão ainda subjugados pela gramática funcional. É nesse sentido que costumo dizer que poderíamos ser todos ótimos escritores, porque manipulamos bem a forma de contar as histórias. Além disso, em Moçambique há um convívio entre várias línguas maternas do pais, o que implica que cada um de nós seja um tradutor em diferentes dimensões. Há línguas aqui que não têm palavras para “natureza”, “meio ambiente”, às vezes “Deus”.

À primeira vista, parece complicado...

...Mas é muito enriquecedor. E é aí que se busca uma linguagem que é própria, criativa e vai além da questão literária, pois valoriza outras lógicas, que estão para além da lógica da escrita. Esse é o modo como fui abraçado e abracei a obra de Guimarães Rosa, por uma questão mais que literária. Tem a ver com aquele jogo que ele faz de apostar numa linguagem que seja construtora de identidade.

Todos os moçambicanos poderiam ser escritores, mas estamos tratando de um país que tem alto índice de analfabetismo.

Não entendo que a luta contra o analfabetismo tenha de ser feita esmagando a oralidade. Não as vejo como coisas contraditórias. A maneira como são construídos os sistemas de saber modernos, ao se eliminar o analfabetismo também se elimina a oralidade, classificando-a. e a oralidade não é a ausência do saber da escrita, a oralidade é um outro saber, uma outra maneira de olhar o mundo.

Em Terra sonâmbula, após a morte do pai, o filho leva comida todos os dias para o falecido, como oferenda, e a comida desaparece. Há passagem semelhante em A terceira margem do rio.

É muito fácil perceber esses cruzamentos, pois essa prática de levar comida pra quem já não está presente é comum na África e ao redor do mundo. Aqui os mortos estão sempre presente, os mortos não morrem. Aqui se leva comida para o falecido, não é algo que invento. Simplesmente coloco num outro contexto.

Você sente algum preconceito por ser branco num país africano?

Há momentos em que tenho de pagar uma espécie de imposto, uma taxa de raça, mas acho que isso é compreensível num país que teve essa situação de racismo agressiva. Não fico negativamente afetado, pois em geral o que ouço nas ruas é as pessoas dizerem: “Você é nosso”. Além disso, em quase todas as línguas daqui não há uma palavra para dizer branco ou preto, como cor de pele, mas há a palavra “muzungo” que quer dizer que a pessoa é uma estranha, uma estrangeira. O recém-chegado será “muzungo”, mesmo se for negro, contanto que não fizer parte do lugar. Brancos e negros são caracterizados da mesma maneira. Se você demonstrar que fala a língua deles e está por dentro do que acontece ali, já não é mais “muzungo”. A cor da pele não é tão determinante assim para aquilo que se determina como sendo  o outro.

Quando a oralidade entra definitivamente na sua obra?

A diferença está na maneira como sai, não na maneira como entra. Todos nós tivemos vozes, que podem ser do pai, do avô, dos tios, e que nos encarnam. O processo de encantamento é que é a raiz, quando nos deixamos encantar pelas primeiras vezes. No meu caso, tive uma sorte enorme, pois minha mãe é uma grande contadora de histórias. Está viva, tem 90 anos, e até hoje conta historias com uma capacidade de criar brilhos e cores muito acentuada. Meus pais eram imigrantes portugueses, vieram só os dois, sem família, e ela se transmutava na família inteira: era avó, bisavó, tia, tio, sempre por via das historias.

Há alguma identificação de Moçambique com o sertão roseano?

Sim, posso dizer que sim. Mas o curioso é que a própria palavra “sertão” também foi introduzida aqui pelos portugueses. Os livros que descrevem as viagens dos exploradores portugueses, no século 19, falam do sertão, embora a palavra tenha morrido por aqui. Eles queriam designar algo que realmente tinha de fato paralelo em Moçambique, algo paisagístico, geográfico, mas a palavra não viveu. Aqui, o que é equivalente é a savana, esta zona de savana que é muito variada, mais densa menos densa, mas tem um sentido de não lugar – no sentido do infinito, que não tem começo e não tem fim, como disse o próprio Rosa. E tem uma sonoridade muito interessante, algo que eu já tratei em algum lugar, porque sertão tem o verbo “ser”, e o “tão” que é uma medida de infinito, algo que é indizível.

A invenção de palavras é uma forma de criação literária?

Sempre que fiz isso não foi porque tinha a intenção de fazer bonito. Nem estava em busca de algo linguístico, simplesmente. Mas porque há coisas que só podem ser ditas assim. A intenção é revelar, acho que o verbo é esse mesmo, no sentido de encontrar uma linguagem outra, que convide o leitor a esta cumplicidade na construção de uma outra linguagem. Não é intenção estética, não é uma técnica, mas é algo que já havia em mim, como uma urgência. Como é que eu vou dar nomes às coisas e livrar-me dessa carga da língua? Como vou retirar Portugal desse meu português? Venho da poesia, fui antes de tudo um poeta e, portanto, tenho na palavra a base de tudo. Sou artífice da palavra. Para mim, a palavra é tão valida quanto a historia. Busco sempre restituir algo divino à palavra e também usá-la como ferramenta. Escrevo porque tenho o prazer de profanar algo que é cotidiano. Às vezes a palavra até está lá, é preciso destapá-la, tirar o pó, uma poeira que a estava cobrindo e pronto – ela é revelada, redescoberta.

Muitas vezes, como fez Rosa, basta inverter a palavra na frase, não?

Sim, muitas vezes na reconstrução de uma frase feita; outras, no provérbio. Rosa trabalhava naquilo que podemos chamar de improvérbios. Ele os torna improváveis, faz com que constituam um sentido de imprevisibilidade. Isto é uma coisa que faço com os meus filhos, ensiná-los para que eles sejam donos desse prazer, de construir sua própria língua, de surpreender-se. Obviamente que nós usamos essa língua social, que está ali feita, que é patrimônio, mas se você não tem a capacidade de torna-la um brinquedo, de usá-la como uma brincadeira, então perde uma oportunidade de ser feliz dia a dia.

E seus filhos conseguem?

Acho que sim, mas isso depende muito da capacidade de ser feliz num território de noutro. Eu, por exemplo, fu uma criança muito feliz, mas com grandes infelicidade, algumas inventadas, pensava que era mal amado, desprezado, que meus pais não me davam mais atenção, aquelas coisas que os meninos inventam para si. Pensava que era muito feio, e não tinha graça... Bom... eu vivia isso tudo. Era uma criança felicíssima, mas brigava contra essas infelicidades inventadas, o que sempre me levava a procurar outros sentidos, ir pro lado avesso.

Você fala em infelicidades inventadas, mas viveu períodos de guerra. Esse é o motivo de esse tema ser tão presente na sua obra?

Vou te contar um episodio ocorrido quando eu tinha 17 anos e que pode ilustrar essa sua pergunta. Fui militante da Frelimo, na altura na clandestinidade, e havia uma coisa curiosa: para oferecer-se à luta, havia uma comissão, perante a qual você tinha de fazer algo que chamávamos de “narração do sofrimento”. Muito bonito o termo, mas você tinha que provar que merecia confiança e sua candidatura à causa revolucionária era legitima. Essa legitimação era feita pelo sofrimento. Comigo estavam pessoas com 30, 40 anos, pessoas pobres, de outra condição social, todos negros que viviam sob um regime de ditadura, um regime racista. Enquanto esperava minha vez para fazer a narrativa, eu me perguntava. O que sofri? Quais foram meus reais sofrimentos? Tinha de pensar rápido quais seriam esses sofrimentos que não tive nunca, para justificar-me. Pensei que não iam me aceitar e , no final, quando me chamaram, disse mais ou menos assim: “Eu sofri por causa de ver sofrimento dos outros. Não passei fome, nunca tive carência, nunca fui discriminado racialmente. Sou parte de uma elite privilegiada, mas todo o resto que inventei como ilusão de sofrimento foi tão real para mim como o sofrimento desses que passaram aqui”. Ao final, alguém me perguntou: “Você é poeta, não é?” Na altura, eu tinha apenas publicado uns textos que ninguém conhecia, em jornal. “Sou”. E eles me disseram: “Precisamos muito de poesia”. E fui aceito.

 Entrevista feita por João Correia Filho
publicada na revista Metáfora, ano 1- número 1- setembro 2011 

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