15/09/2014

Desabafo de uma mulher mal comida







Seu amor puritano
Não te deixa ver a puta
Que há em mim, não me deixa admitir.
Você se nega a me comer,
Com essa história de fazer amor
Quando vamos gozar sem pudor?
Você se nega a me foder
E diz que sou uma dama, que me ama
Que mereço respeito.
E toca tão sem jeito nos meus peitos.


E vai pra rua se orgulhar de mim
Dizer que sou assim
Como uma esposa deve ser.
E eu aqui, presa nesse andor de santa.
Com um amor tão lindo
Que não serve nem pra me fazer gemer.


Pecado é morrer quando ainda se pode respirar.
O amor é um crime passional.
Eu sei! Você é bem melhor com suas amantes,
Minha boceta não é de enfeite.
Dê a elas os diamantes

E a mim, seu pau.


Eliano Silva



07/07/2014

Música para ouvir depois da chuva

Uma dessas canções que a gente faz em um fim de tarde úmido de chuva fraca. A letra curta e a melodia singela cantada em sussurros ao violão, reflete a calmaria do cotidiano que os poetas captam tão sensivelmente e a transformam em arte. Poeta é um tipo de alquimista que converte monotonia em poesia; meninos se banham nos pingos de chuva; senhoras espreitam das janelas; funcionários trabalham ainda; alguns, sentados na sala, assistem TV. Eu? Dedilho violões. 

 Antes que eu não possa mais cantar vou cantar
até não puder mais. 

Eu insisto em ser poeta, meu bem.
Quero escrever mais mil cadernos. 

Berrar como se deve, 
largar o que não me serve, 
morrer só se for de amores. 

O vento empurra a janela 
e a retina se adapta. 
A brisa acalma, meu bem 
a alma, acalma. 

(Eliano Silva)

04/07/2014




Não vê quando calo
disparo olhares
reparo lugares 
velejo nos mares
nos bares desejo
mais álcool e limão?
Não vê que perdido
fitando vazios 
a boca silencio
pensando confusão?
Não vê que não digo
porque é pecado
eu sou um perigo
posso querer que
venha pecar comigo?


(Eliano Silva)







Calmamente
a monotonia mata a gente.
Calma, mente!

(Eliano Silva)




14/06/2014

Pedagogia do discriminado



A gente precisa
marginalizar a educação
pra educar o marginal.
Literatura nas favelas
em vez de policial.

Assaltar à mão armada com poesia
em tudo que é beco e viela
até viciar cada criança dia após dia.

A gente precisa
poetizar a monotonia
e "monotizar" a poesia.

Crime?
Só o de subversão.
Paz?
Só depois da confusão.

Que ao revistarem nossas mochilas
somente livros venham ao chão.
E pela primeira vez nossas armas
as deles abaterão.

Que as prisões venham à falência,
que a violência seja no sarau.

Que a turma da boca
abra a boca
e rasgue o verbo
com a língua de punhal.

Que o menino franzino
e preto cause medo
pelo perigo que é transportar
no bolso do calção desbotado
algum verso clandestino
num papel amassado. 

A gente precisa
tirar a escola das salas de aulas
e fazer de sala de aula qualquer calçada.

Que a pele queimada
pelo sol quente
do menino sem camisa
possa ser sua farda
e que a única exigência
seja seu riso gratuito.

Mãos pra o alto.
Calma, leitor.
Isso não é um assalto.
É apenas um aluno
com dúvida no assunto
perguntando ao professor.

(Eliano Silva)


13/04/2014



você fica tão bela
quando se deixa
a toa na janela.
uma flor do mato te admirando
e você admirando ela.

(Eliano Silva)


Faltou energia 
elétrica na rua.
A música era dos
grilos e gias,
e lua por todo canto.


(Eliano Silva)

10/04/2014

Na beira de água nova



Chuvas de verão
aqui pra nós é inverno.
Sapinhos que vêm do açude
pulam direto pra esse caderno.

(Eliano Silva)

02/04/2014

Sem dores, sem cores



A poesia está crua ainda.
Não passa de um amontoado
de frases a esmo.
Pode ser que não sejam
inteiramente maus os seus versos,
mas guarde-os no bolso.

A poesia tem que ter
marcas da sua última surra.
Um poeta sem dores
escreve sem paixão.

A poesia não é hobby nem profissão.
É um parto.
É a condição.

(Eliano Silva)

31/03/2014

Primeiro do 4



Já que 
Abril,
Entre!

(Eliano Silva)


Quem divide a vida em profissional
e pessoal é o engenheiro civil.
O poeta: Fez a misturada,
botou limão e se serviu.


Eliano Silva

28/03/2014

23/03/2014

...



Quando fui poética
só me era estética
o que era dor.

Quando não passei de versos
diversos e prosa
fui retórica retrógrada.

Quando fui silêncio
nada me silenciou
e no branco vácuo empalidecido
fui erupção
num vulcão adormecido.


(Eliano Silva)

09/03/2014

08/03/2014

Res(peitos)

...



...
às que apreciam Frédéric Chopin
às que dançam lepo lepo.
...
liberdade libertinagem,
pintura de guerra, maquiagem,
mini saia libertina, 
donzela, masculina, 
bermuda jeans, 
vestido Armani.
...
seios à mostra
da puta,
da que luta,
da que transa, 
da que se guarda,
da vândala, da pacífica,  
da passista, da rainha  
da escola de samba,
da bailarina clássica,
da que dorme em qualquer cama,
da que amamenta o filho,
da que ama.
...
às que carregam o mundo no dorso
às que beijam no ombro.
...

(Eliano Silva)

07/03/2014

SUBVERSOS





São ventos os versos
              Subversivos
               Que lapido.

São versos despudorados
Como putas e mendigos.
Mentais e estereotipados.

São versos que habitam
Nos subúrbios e cubículos.
São versos que não publico,
                               Grito.

São versos transeuntes
No transito demente,
Na arquitetura e urbanismo
                     Cosmopolita.

São versos marginais
Manchados e  encardidos
De vermelho sangue
Do bandido em carne viva
Refém das benevolências
Dos que são de bem.

Bendito bom é o não dito.

São versos em português errado.
Objeto dos sociolinguistas.
São sociais sociopáticos.  
Saussures e patativas.

São versos pós-modernos,
Antiquados, enquadrados
Em retratos nas paredes
                    Demolidas.

São demônios indo à missa
                     No domingo
Nos bolsos dos vestidos
Das mulheres submissas.

São incertos
São insetos
Como pragas nos muros
E calçadas da cidade.
E deixando em apuros
Bons costumes e moralidade
Imoral do caifás nada
              Engravatado.



(Eliano Silva)


05/03/2014





usei toda a tristeza
para fazer versos

porque quando
a alegria vem
toma todo o meu tempo



Eliano Silva


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