26/01/2013

O poeta Antonio Francisco.

  Ao lado do poeta Antônio Francisco 



Falamos sobre muitas coisas, mais ele do que eu, porque qualquer pessoa se torna monossilábico ao lado de quem tem o dom da contação de estórias como este senhor que planta roça e se locomove de bicicleta e é genial. Dizia ele "A amizade é a chave que abre a porta do castelo onde mora o coração".

Ele ocupa a cadeira de número 15 na Academia Brasileira de Literatura de Cordel, a mesma do saudoso Patativa do Assaré. Tem cerca de 30 folhetos e é autor de obras como: Dez cordéis num cordel só, que já foi abordada em vestibular.

Antônio Francisco disse que larga seus livros pela a casa, ao alcance de todos, e quando lhe perguntam se não tem medo de que alguém os roubem, ele responde que teria o maior prazer em dizer que na sua terra se ler tanto que se rouba livros.

No vídeo a seguir, ele declama: O ataque de Mossoró ao bando de Lampião.


06/01/2013

O casal arrumando a casa







Amor, tô arrumando a casa
Cuida dos gêmeos pra mim

sei fazer aquela comida,
tô prontinha pra casar, 
faço tudo direitinho

Que cor serão essas paredes? 
que tal se aqui ficar o sofá?
a TV bem alí!

(Eliano Silva)


Walquiria

Fernando Júnior, escritor potiguar http://ffbjr.blogspot.com.br/

por Eliano Silva

Conheço Fernando Júnior já faz algum tempo, desde 2008 precisamente. Eu estava no ensino médio, prestes a ter a primeira aula de filosofia do ano letivo e  já estava entediado só em imaginar o que vinha pela frente, pensava em não assistir a aula, pois durante toda minha vida escolar percebi que disciplinas como essas (filosofia, artes...) na maioria das vezes não tiveram seu devido respeito, nem pelos alunos, muito menos pela escola, e sempre eram ministradas pelos piores professores, que nada sabiam sobre arte ou filosofia.
 Porém, naquela tarde, eis que surge na sala, um baixinho de cabelos compridos, parecendo mais aluno do que professor, pedindo silêncio porque ele iria começar a aula. “Essa eu quero ver (risos)” falei pra mim mesmo.
  A aula começou e eu estava comprometido em observar cada gafe que aquele menino cometesse, seria um prato cheio pra quem gostava tanto de criticar como eu naquela época. Mas por ironia ou por competência do jovem professor, eu estava tendo a melhor aula que já tivera até ali e estava difícil achar motivo para falar mal daquele cara tão entusiasmado e tão apaixonado por aquilo que fazia. Até então, eu nunca tinha visto alguém com aquela jovialidade e plena convicção do que dizia, era uma segurança e uma desenvoltura, que pra mim eram novidades. Em um dado momento, eu desisti de querer criticar, aliás, eu esqueci, fui tomado por seu talento, inundado pela paixão com que aquele professor era professor. Desde então, eu soube que Júnior era uma pessoa iluminada, e merecia atenção de todos acerca de tudo que ele fizesse.

 Agora tenho em mãos Walquiria. E o que tenho a dizer dessa novela? Poderia resumir em uma palavra: apaixonante.

Quem me ler poderá achar que eu estou querendo agradar o autor, considerando a admiração e a amizade que eu o tenho. Mas não. Deveras eu iniciei a leitura com o detector crítico ativado, o mesmo de há cinco anos no início daquela aula de filosofia, afim de elaborar uma resenha que que condissesse com o conteúdo da obra em questão. E vejam só! o filme se repete, em dado momento, eu esqueci que estava lendo, viajei na leitura, na trama, na cultura cigana, no mundo de Walquiria. Desisti de querer criticar e li simplesmente e, gostei.

O autor nos leva dos sarais ciganos de noites estreladas e violões aos boleros nas gafieiras do Rio de Janeiro.
 Ao lermos essa obra, somos levados a refletir sobre um grande dilema: “desfrutar o momento ou cuidar do amanhã?" até que ponto uma tradição cultural deve ser respeitada e seguida?
Para Fernando Júnior ficou claro, até quando a obediência dessa tradição não impedirá de sermos felizes. E é através de uma personagem que tem desejos imensos que ele nos diz.

É um livro repleto de intertextualidade, que reforça o que o autor quer dizer, e torna-o mais dinâmico. A influência de Glória Perez é notável.

O texto é bem escrito, proporcionando uma leitura gostosa, que pode ser feita de uma vez, tomada em uma só dose. O tempo que você ficará em silencio refletindo sobre a obra é maior do o que levará para ler. Júnior foi capaz dessa façanha.
Fazendo minhas as palavras da professora Maria Lúcia Pessoa Sampaio, Valeu a pena ler Walquiria.




"A vida é um intervalo finito de duração indefinida[...] O futuro é o tempo que nos resta: finito, porém incerto" 
Fernando Figueira Barbosa Júnior



05/01/2013

Entorpecida 
por essa ideia vencida
de liberdade

Em terra de cego quem tem os dois olhos
tropeça na ignorância
A reclusão travestida de libertação

Põe no tronco e açoita
Deixa marcas no dorso




(Eliano Silva)

02/01/2013

Entrevista com Mia Couto

Mia Couto é um escritor moçambicano que faz literatura em português. As suas obras são caracterizadas por forte identidade cultural de seu país e é nesse aspecto que se assemelha com a literatura brasileira. Nesta entrevista, ele fala sobre a influencia de Guimarães Rosa em seu texto.



Grande Sertão: Savana

                                                                                                por João Correia Filho, De Maputo

Quando Guimarães Rosa começou a influenciar a sua obra?

Depois que escrevi meu primeiro livro de contos, vozes anoitecidas (1987). Rosa tinha feito uma espécie de recriação do português, o que me tocou muito, porque havia na época uma necessidade quase existencial dos escritores moçambicanos em se verem livres de um português que já não lhes servia, que era uma espécie de vestuário que tinha sido feito à medida de outra cultura, já um pouco desajustada, uma espécie de um termo fabricado com tecido e padrões que não tinham absolutamente a ver com a realidade moçambicana. E nós sabíamos que o Brasil havia feito isso há mais de dois séculos, havia vencido essa briga para tornar sua língua mais plástica, mais adequada, mais próxima da oralidade. Aliás, é justamente isso que Guimarães faz, ele abre a porta às vozes, aquilo que está latente na oralidade de seu país.

Como foi o primeiro contanto com a obra dele?

O escritor angolano Luandino Vieira havia dito numa entrevista que tinha sido marcado pela obra de Rosa. Era um autor que eu não conhecia, pois estávamos em guerra e tínhamos pouca ligação com o Brasil. Só fui conhecer sua obra um ano depois, em 1988, quando um amigo brasileiro trouxe fotocópias de uns textos do Rosa, entre as quais estava A terceira margem do rio(do livro Primeiras Estórias ,de 1962). Foi um abalo sísmico. A uma certa altura eu não o leio, sou atirado para fora da página, começo a escutar vozes e tenho de regressar à página como se de fato aquilo que eu encontrei estivesse fora da página, que é este o local da oralidade. Rosa foi capaz de deixar que a lógica da escrita fosse levada a um outro tipo de lógica. Esse é o grande achado. Não saí igual depois de ler aquele texto e, quando escrevi meu segundo livro, Cada homem é uma raça (1990), já estava muito marcado por esse contato, por esse diálogo.

A oralidade de sua obra tem a ver com a dele?

Aqui em Moçambique não é possível fugir da oralidade. Posso dar vários exemplos em que as pessoas podem discutir a coisa mais sagrada e mais séria do mundo, economia, por exemplo, mas o fazem contando isso com histórias, com aquilo que são os conceitos da oralidade, e não estão ainda subjugados pela gramática funcional. É nesse sentido que costumo dizer que poderíamos ser todos ótimos escritores, porque manipulamos bem a forma de contar as histórias. Além disso, em Moçambique há um convívio entre várias línguas maternas do pais, o que implica que cada um de nós seja um tradutor em diferentes dimensões. Há línguas aqui que não têm palavras para “natureza”, “meio ambiente”, às vezes “Deus”.

À primeira vista, parece complicado...

...Mas é muito enriquecedor. E é aí que se busca uma linguagem que é própria, criativa e vai além da questão literária, pois valoriza outras lógicas, que estão para além da lógica da escrita. Esse é o modo como fui abraçado e abracei a obra de Guimarães Rosa, por uma questão mais que literária. Tem a ver com aquele jogo que ele faz de apostar numa linguagem que seja construtora de identidade.

Todos os moçambicanos poderiam ser escritores, mas estamos tratando de um país que tem alto índice de analfabetismo.

Não entendo que a luta contra o analfabetismo tenha de ser feita esmagando a oralidade. Não as vejo como coisas contraditórias. A maneira como são construídos os sistemas de saber modernos, ao se eliminar o analfabetismo também se elimina a oralidade, classificando-a. e a oralidade não é a ausência do saber da escrita, a oralidade é um outro saber, uma outra maneira de olhar o mundo.

Em Terra sonâmbula, após a morte do pai, o filho leva comida todos os dias para o falecido, como oferenda, e a comida desaparece. Há passagem semelhante em A terceira margem do rio.

É muito fácil perceber esses cruzamentos, pois essa prática de levar comida pra quem já não está presente é comum na África e ao redor do mundo. Aqui os mortos estão sempre presente, os mortos não morrem. Aqui se leva comida para o falecido, não é algo que invento. Simplesmente coloco num outro contexto.

Você sente algum preconceito por ser branco num país africano?

Há momentos em que tenho de pagar uma espécie de imposto, uma taxa de raça, mas acho que isso é compreensível num país que teve essa situação de racismo agressiva. Não fico negativamente afetado, pois em geral o que ouço nas ruas é as pessoas dizerem: “Você é nosso”. Além disso, em quase todas as línguas daqui não há uma palavra para dizer branco ou preto, como cor de pele, mas há a palavra “muzungo” que quer dizer que a pessoa é uma estranha, uma estrangeira. O recém-chegado será “muzungo”, mesmo se for negro, contanto que não fizer parte do lugar. Brancos e negros são caracterizados da mesma maneira. Se você demonstrar que fala a língua deles e está por dentro do que acontece ali, já não é mais “muzungo”. A cor da pele não é tão determinante assim para aquilo que se determina como sendo  o outro.

Quando a oralidade entra definitivamente na sua obra?

A diferença está na maneira como sai, não na maneira como entra. Todos nós tivemos vozes, que podem ser do pai, do avô, dos tios, e que nos encarnam. O processo de encantamento é que é a raiz, quando nos deixamos encantar pelas primeiras vezes. No meu caso, tive uma sorte enorme, pois minha mãe é uma grande contadora de histórias. Está viva, tem 90 anos, e até hoje conta historias com uma capacidade de criar brilhos e cores muito acentuada. Meus pais eram imigrantes portugueses, vieram só os dois, sem família, e ela se transmutava na família inteira: era avó, bisavó, tia, tio, sempre por via das historias.

Há alguma identificação de Moçambique com o sertão roseano?

Sim, posso dizer que sim. Mas o curioso é que a própria palavra “sertão” também foi introduzida aqui pelos portugueses. Os livros que descrevem as viagens dos exploradores portugueses, no século 19, falam do sertão, embora a palavra tenha morrido por aqui. Eles queriam designar algo que realmente tinha de fato paralelo em Moçambique, algo paisagístico, geográfico, mas a palavra não viveu. Aqui, o que é equivalente é a savana, esta zona de savana que é muito variada, mais densa menos densa, mas tem um sentido de não lugar – no sentido do infinito, que não tem começo e não tem fim, como disse o próprio Rosa. E tem uma sonoridade muito interessante, algo que eu já tratei em algum lugar, porque sertão tem o verbo “ser”, e o “tão” que é uma medida de infinito, algo que é indizível.

A invenção de palavras é uma forma de criação literária?

Sempre que fiz isso não foi porque tinha a intenção de fazer bonito. Nem estava em busca de algo linguístico, simplesmente. Mas porque há coisas que só podem ser ditas assim. A intenção é revelar, acho que o verbo é esse mesmo, no sentido de encontrar uma linguagem outra, que convide o leitor a esta cumplicidade na construção de uma outra linguagem. Não é intenção estética, não é uma técnica, mas é algo que já havia em mim, como uma urgência. Como é que eu vou dar nomes às coisas e livrar-me dessa carga da língua? Como vou retirar Portugal desse meu português? Venho da poesia, fui antes de tudo um poeta e, portanto, tenho na palavra a base de tudo. Sou artífice da palavra. Para mim, a palavra é tão valida quanto a historia. Busco sempre restituir algo divino à palavra e também usá-la como ferramenta. Escrevo porque tenho o prazer de profanar algo que é cotidiano. Às vezes a palavra até está lá, é preciso destapá-la, tirar o pó, uma poeira que a estava cobrindo e pronto – ela é revelada, redescoberta.

Muitas vezes, como fez Rosa, basta inverter a palavra na frase, não?

Sim, muitas vezes na reconstrução de uma frase feita; outras, no provérbio. Rosa trabalhava naquilo que podemos chamar de improvérbios. Ele os torna improváveis, faz com que constituam um sentido de imprevisibilidade. Isto é uma coisa que faço com os meus filhos, ensiná-los para que eles sejam donos desse prazer, de construir sua própria língua, de surpreender-se. Obviamente que nós usamos essa língua social, que está ali feita, que é patrimônio, mas se você não tem a capacidade de torna-la um brinquedo, de usá-la como uma brincadeira, então perde uma oportunidade de ser feliz dia a dia.

E seus filhos conseguem?

Acho que sim, mas isso depende muito da capacidade de ser feliz num território de noutro. Eu, por exemplo, fu uma criança muito feliz, mas com grandes infelicidade, algumas inventadas, pensava que era mal amado, desprezado, que meus pais não me davam mais atenção, aquelas coisas que os meninos inventam para si. Pensava que era muito feio, e não tinha graça... Bom... eu vivia isso tudo. Era uma criança felicíssima, mas brigava contra essas infelicidades inventadas, o que sempre me levava a procurar outros sentidos, ir pro lado avesso.

Você fala em infelicidades inventadas, mas viveu períodos de guerra. Esse é o motivo de esse tema ser tão presente na sua obra?

Vou te contar um episodio ocorrido quando eu tinha 17 anos e que pode ilustrar essa sua pergunta. Fui militante da Frelimo, na altura na clandestinidade, e havia uma coisa curiosa: para oferecer-se à luta, havia uma comissão, perante a qual você tinha de fazer algo que chamávamos de “narração do sofrimento”. Muito bonito o termo, mas você tinha que provar que merecia confiança e sua candidatura à causa revolucionária era legitima. Essa legitimação era feita pelo sofrimento. Comigo estavam pessoas com 30, 40 anos, pessoas pobres, de outra condição social, todos negros que viviam sob um regime de ditadura, um regime racista. Enquanto esperava minha vez para fazer a narrativa, eu me perguntava. O que sofri? Quais foram meus reais sofrimentos? Tinha de pensar rápido quais seriam esses sofrimentos que não tive nunca, para justificar-me. Pensei que não iam me aceitar e , no final, quando me chamaram, disse mais ou menos assim: “Eu sofri por causa de ver sofrimento dos outros. Não passei fome, nunca tive carência, nunca fui discriminado racialmente. Sou parte de uma elite privilegiada, mas todo o resto que inventei como ilusão de sofrimento foi tão real para mim como o sofrimento desses que passaram aqui”. Ao final, alguém me perguntou: “Você é poeta, não é?” Na altura, eu tinha apenas publicado uns textos que ninguém conhecia, em jornal. “Sou”. E eles me disseram: “Precisamos muito de poesia”. E fui aceito.

 Entrevista feita por João Correia Filho
publicada na revista Metáfora, ano 1- número 1- setembro 2011 

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