23/04/2012

O casal Amado





"Ave maria! Como falava bem! Que orador entusiasta! Quanto charme!". Exterioriza  Zélia Gattai sua admiração por Jorge Amado nos tempos em que ele era um jovem escritor, militante, presidente da delegação baiana de escritores no primeiro congresso de escritores brasileiros.
O ano era 1945, tempos de ditadura no Brasil. Jorge Amado se encontrava clandestinamente no estado de São Paulo, já que estava proibido de sair da Bahia depois de voltar do exílio na Argentina e Uruguai. Retomou suas atividades no jornal O Imperial, colaborando com crônicas e contos. Porém Jorge era inquieto de mais, idealista de mais para cruzar os braços diante do que acontecia no país, desobedecendo seja lá quem quer que fosse, seguiu em direção a São Paulo, filiado ao PCB protestou contra a guerra e pela a anistia de presos políticos. E é nessa situação que se dá o encontro de Jorge amado e Zélia Gattai, com quem ele se casa.
Jorge tinha fama de galanteador, vivia às voltas de mulheres bonitas e intelectuais. Zélia era uma moça tímida, segundo sua própria mãe, despreparada para ser companheira de tal personalidade, no fim das contas, ela acabaria largada quando o rapaz cansasse, era uma questão de tempo. Ao contrário disso, os 56 de convivência com Jorge transformou Zélia em uma escritora respeitada e só a morte os separou em 2001. Nem no fim da vida, quando Jorge passava o dia de olhos fechados, quieto, ele deixou de ama-la, lembrava com detalhes como ocorrera o primeiro beijo e discutindo qual dos dois teria tido essa iniciativa, colocando sempre a culpa em Zélia. Na verdade, os dois se esbarraram na cozinha do apartamento de Jorge onde acontecia um encontro entre artistas, propositalmente, não se sabe, ele a chamou para ajudá-lo a pegar copos e bebidas e acidentalmente aconteceu o primeiro e breve beijo do casal.
Aquele beijo selou o início da parceria que durou anos e rendeu muitos romances a Jorge Amado. Eles se casaram e foram morar no Rio de janeiro, numa chácara afastada de barulho, propício ao trabalho de Jorge, como escritor. Além de contar com essa calmaria, ele contava com os dez dedos de Zélia, ela tinha curso de datilografia e passava a limpo todos os seus escritos, foi assim sempre. Apoiando seu marido em seus devaneios ela aprendeu muito sobre os processos de criação de um escritor com a genialidade de Jorge.
Um dia estranhou o fato dele não está trabalhando, como nos outro dias, e sim observando o galinheiro sem nenhum motivo aparente, não sabia ela, que estava sim trabalhando, estava escrevendo em sua cabeça o que seria passado para o papel posteriormente.
Nessa época Jorge era deputado federal, concluiu o mandato sobre fortes pressões ao partido, sofrendo ameaças de morte, até ser exilado novamente de seu país. Ficaram para viajar depois a mulher e o filho recém- nascido, João Jorge Amado, que quatro meses após seguiram ao seu encontro. Por falta de dinheiro não viajaram juntos, apesar de Jorge ser um escritor renomado, passava por problemas financeiros, já que a ditadura afetava a venda de seus livros no Brasil.
O exílio na Europa resultou em novas amizades entre a família amado e escritores, artistas plásticos, músicos e personalidades importantes do velho continente. Recebiam visitas de Sartre, Pablo Picasso, Paul Éluard e outros. Nesta lista de intelectuais estavam também dois amigos de Jorge, assim como ele exilados de seus países, os latinos Pablo Neruda e Nicolás Guillén, que viviam disputando a vaga de padrinho dos filhos Zélia e Jorge. O nascimento da filha do casal, Paloma, aconteceu às voltas dessa discussão, travada em um quarto de maternidade na República Tcheca. A estadia na Europa da família Amado, rendeu estórias e muitos momentos alegres. Ria-se muito, conversava-se muito. Jorge escreveu, ganhou prêmio, fez amizades para vida. Foram felizes até que o clima de tensão voltou a fazer parte do quotidiano da família, amigos que foram considerados heróis do socialismo, passaram a ser acusados de traição.
Jorge Amado em sua posse.
O exílio acabou em 1952, eles voltam para o Brasil quando a situação no país dera uma acalmada. Jorge abandona a política em fim, e dedica-se exclusivamente a atividade de escrever, funda um jornal, batizado Paratodos, no Rio de Janeiro, em parceria com outros intelectuais, mas por falta de patrocínio dura apenas 3 anos. Nessa época ele escreve um de seus romances mais lidos, Gabriela, cravo e canela. Alvo de críticas, foi traduzido em diversos países. Em 1961 é eleito à Academia Brasileira de Letras, cadeira 23, a mesma foi ocupada por José de Alencar, Machado de Assis entre outros. Em 63 muda com a família para a Bahia. 
Tem uma estória que baiano é preguiçoso, não sei se confere, mas foi o que a mãe de Jorge disse referindo-se aos amigos que frequentavam a sua casa em Salvador. “é tudo artista e artista trabalha? Pra mim é tudo vagabundo” e as visitas do casal eram ilustres, por querer resumir a história, cito apenas o diretor e ator de cinema Roman Polanski, seu grande amigo Caymmi, o filósofo Sartre e por ai vai.
O tempo passa, os filhos do casal crescem em meio a homens e mulheres geniais. Na Bahia Jorge escreve, obras importantes, como Tieta do Agreste. Com a venda dos direitos autorais desta obra, ele compra um apartamento em Paris, onde passa momentos inesquecíveis com Zélia, como foi o caso de uma vez em seu aniversário, ela acordar coberta de pétalas de flores, fazendo-a lembrar de quando se conheceram na mocidade, Jorge nessa ocasião houvera, da mesma forma, derramado um mar de flores sobre ela.
O acervo de Jorge nesse tempo, já não cabia em casa de tão vasto, juntando esse fator com o desejo do escritor em semear a arte e a cultura, em 1986 nasce a fundação Casa Jorge Amado.

Zélia havia gozado da vida ao lado de Jorge, agora tinha o prazer de envelhecer com ele e sofrer ao ver que já não contava com sua saúde, andava com o coração doente, nosso Amado. Várias vezes tiveram que sair às pressas para o pronto-socorro e frequentemente era atendido em casa por um cardiologista amigo. Mas creio que a tristeza de Jorge no fim da vida era proveniente de seu problema de visão que o impedia de ler e escrever, baseando-me em suas palavras em um discurso breve que fizera ao ser homenageado na Feira do Livro em Paris, onde com voz firme apesar da debilitada saúde, Jorge afirma: “Escrever, é para mim, o mesmo que viver”.
 Ele já não escrevia, passava o dia quieto, triste, velho. E aos 89 anos, Jorge se vai, deixando à Zélia uma tristeza ímpar. Numa tentativa de animar-se, ela faz uma viagem a Porto Alegre em companhia de seu filho e sua nora. Encontra com outra viúva, mulher de Érico Veríssimo, amicíssimo de seu querido Jorge, com a qual, conversa sobre a sorte tamanha que a vida lhes proporcionou, por terem sido esposas de grandes homens. “Zélia, pense que você, como eu, somos mulheres privilegiadas” disse Mafalda.
Em 2002, Zélia, junta com seus filhos, João Jorge Amado e Paloma Jorge Amado, começa a escrever um livro, em qual está três relatos de amor ao marido e pai, Intitulado “Jorge Amado um baiano romântico e sensual”.  No mesmo ano, Zélia ocupa a mesma cadeira que pertencia a seu marido na Academia Brasileira de Letras. Se vai em 2008 aos 91, seu corpo foi cremado e as cinzas espalhadas pela casa do Rio Vermelho igualmente como foi feito com Jorge Amado.

 (Eliano Silva)

Referência:
AMADO, Zélia Gattai; AMADO, Paloma Jorge; AMADO, João Jorge. Um Baiano Romântico e Sensual. Rio de Janeiro: Editora Record - 2002. 231 p

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