30/12/2012

Feliz ano velho

Marcelo Rubens Paiva, escritor brasileiro, nascido em São Paulo em 1959.




Uma história relatada sob um corpo imóvel. Marcelo Rubens Paiva depois de um acidente que o deixa tetraplégico narra como foram seus 20 anos até ali, bem vividos, com intimidade, a ponto do leitor se sentir seu confidente amigo.


Estudante de engenharia agrícola na Unicamp, músico amador, várias garotas na sua, sexo e maconha.


Um mergulho estilo Tio Patinhas em um lago de meio metro de profundidade, o fará passar aquele réveillon de 1979 para 1980 no hospital com apenas ‘’um par de olhos, nariz, ouvido e boca’’ como ele conta, “feliz ano velho, adeus, ano novo”.


Apesar da difícil realidade em que se encontra, Marcelo nos faz rir com um humor irônico com que conta, através de flashback, suas aventuras e sua recuperação sempre às voltas de amigos, família e namorada. O que era pra ser uma história triste, e não deixa de ser em alguns momentos, torna-se, no seu decorrer, um relato de superação e exemplo de amizade.



"Um livro emocionante sem ser piegas, crítico e irônico sem ser inocuamente agressivo. E mostra que apesar de tudo, Marcelo não perdeu a paixão pela vida. Paixão que lhe permite fazer boa literatura."

Veja


"Marcelo, aos invasores, opõe sua juventude, sua mente sadia. Escreve. Luta. Politizado. Não se entrega, não odeia. Compreende. Sacudiu a poeira, deu a volta por cima."

Folha de São Paulo

"A tragédia e o Humor, duas maneiras de ver o mundo em uma maravilhosa obra brasileira."
La Nacion (Argentina)

"Devemos aplaudir este jovem e talentoso escritor, que prova a capacidade de renovação da literatura latino-americana."
Die Zeit (Alemanha)

(Eliano Silva)

20/12/2012

Nação Crioula






José Eduardo Agualusa, escritor africano, de Angola.




O Nação Crioula foi o último navio negreiro a fazer a travessia do Atlântico, portando em seus porões os negros que serviriam de escravos no Brasil. O tráfico de africanos era um verdadeiro  atentando contra os direitos humanos.  Durante as longas viagens marítimas poucos resistiam às condições miseráveis, às moléstias e aos açoites a que eram submetidos, sabe-se que poucos dias após o embarque, os corpos começavam a se amontoar, e os devaneios dos que sobreviviam eram tantos que começavam a matar uns aos outros e a si mesmos.




Esta obra de Agualusa é antes de tudo uma estória de escravidão, não apenas dos que foram escravizados, mas dos que escravizaram.


Fradique Mendes é o personagem principal, que narra através de cartas, suas andanças, aventuras e sua paixão por Ana Olímpia, uma mulata de Angola, filha de uma escrava com um escravocrata e viúva de um rico traficante de negros que era adepto dos movimentos abolicionistas. Ana Olímpia irá se fazer presente no pensamento de Fradique desde quando ele a conhece e será destinatária de várias correspondências. Ele também escreverá a sua Madrinha madame Jouarre, e a seu amigo Eça de Queirós.


Embora Nação Crioula seja uma obra fictícia, ela nos remete muito realmente a realidade do século XIX, de modo que figuras reais da história do Brasil  aparecem, por exemplo, o importante abolicionista brasileiro, José do Patrocínio. Vale ressaltar que Fradique Medes é um personagem criado anos antes por Eça de Queirós e reaparece neste romance, tornando-o um livro recheado de intertextualidade.


É notável a crítica destinada a aristocracia. José Eduardo Agualusa aborda de maneira extremamente poética a questão social de Angola, Portugal e Brasil, expõe o modo de pensar de uma sociedade hipócrita, de maneira que quem estava sob as correntes e selas não eram os prisioneiros, escravos sim, mas livres, porque tinham uma liberdade que seus escravizadores nunca a teriam, a liberdade de espírito.


(Eliano Silva)

15/12/2012

A nova capa do meu blog remete rapidamente a Geração Beat, especificamente a Allen Ginsberg. O seu poema UIVO, nas ilustrações de Erick Drooker. Senhoras e senhores, eis o criador e a criatura:




 UIVO

Eu vi os expoentes da minha geração destruídos
pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de
madrugada em busca uma dose violenta de qualquer coisa
"hipsters" com cabeça de anjo ansiando pelo
antigo contacto celestial com o dínamo estrelado da
maquinaria da noite, que pobres, esfarrapados e
olheiras fundas, viajaram fumando sentados na
sobrenatural escuridão dos miseráveis apartamentos
sem água quente, flutuando sobre os tectos das
cidades contemplando jazz, que desnudaram os seus
Cérebros ao céu sob o Elevador e viram anjos maometanos
cambaleando iluminados nos telhados das casas dos
cómodos que passaram por universidades com olhos frios
e radiantes alucinando Arkansas e tragédias à luz de
William Blake entre os estudiosos da guerra, que
foram expulsos das universidades por serem loucos
& publicarem odes obscenas nas janelas do crânio,
que se refugiaram em quartos de paredes de pintura
descascada em roupa de baixo queimando seu dinheiro
em cestas de papel, escutando o Terror
através da parede.

Que foram detidos nas suas barbas púbicas voltando por
Laredo com um cinturão de marijuana para Nova Iorque, que
comeram fogo em hotéis mal-pintados ou beberam
terebentina em Paradise Alley, morreram
ou flagelaram seus os torsos noite após noite
com sonhos, com drogas, com pesadelos na vigília,
álcool e caralhos e intermináveis orgias,
incomparáveis ruas cegas sem saída de nuvem trémula e
clarão na mente pulando nos postes dos
pólos de Canadá & Paterson, iluminando completamente o
mundo imóvel do Tempo intermediário,
solidez de Peiote dos corredores, aurora de fundo de
quintal com verdes árvores de cemitério, bebedeira
de vinho nos telhados, fachadas de lojas de subúrbio
na luz cintilante de neon do tráfego na corrida
de cabeça feita de prazer, vibrações de sol e lua e
árvore no ronco de crepúsculo de inverno de
Brooklyn, declamações entre latas de lixo e a suave
soberana luz da mente,


que se acorrentaram aos vagões do metro para o
infindável percurso do Battery ao sagrado Bronx
de benzedrina até que o barulho das rodas e crianças
os trouxesse de volta, trémulos, a boca
rebentada e o despovoado deserto do cérebro
esvaziado de qualquer brilho na lúgubre luz do
zoológico, que afundaram a noite toda na luz
submarina de Bickford's, voltaram à tona e passaram
a tarde de cerveja choca no desolado Fuggazi's escutando
o matraquear da catástrofe na vitrola automática de
hidrogénio, que falaram setenta e duas horas sem parar
do parque ao bar ao Hospital Bellevue, do Museu
à Ponte de Brooklyn, batalhão perdido de debatedores
platónicos saltando dos gradis das escadas de emergência
dos parapeitos das janelas do Empire State da Lua,
tagarelando, berrando, vomitando, sussurrando factos e
lembranças e anedotas e viagens visuais e
choques nos hospitais e prisões e guerras,
intelectos inteiros regurgitados em recordação total
com os olhos brilhando por sete dias e noites,
carne para a sinagoga jogada na rua,
que desapareceram no Zen de Nova Jersey de lugar algum
deixando um rasto de cartões postais
ambíguos do Centro Cívico de Atlantic City,
sofrendo suores orientais, pulverizações tangerianas
nos ossos e enxaquecas da China por causa da
falta da droga no quarto pobremente mobiliado de
Newark, que deram voltas e voltas à meia-noite no pátio
da estação ferroviária perguntando-se onde ir e
foram, sem deixar corações partidos,
que acenderam cigarros em vagões de carga, vagões de
carga, vagões de carga que rumavam
ruidosamente pela neve até solitárias fazendas dentro
da noite do avô, que estudaram Plotino, Poe,
São João da Cruz, telepatia e bop-cabala pois o Cosmos
instintivamente vibrava a seus pés em Kansas,
que passaram solitários pelas ruas de Idaho procurando
anjos índios e visionários que eram anjos
índios e visionários, que só acharam que estavam
loucos quando Baltimore apareceu em êxtase
sobrenatural, que pularam em limusines com o chinês
de Oklahoma no impulso da chuva de inverno na luz das
ruas de cidade pequena à meia-noite,
que vaguearam famintos e sós por Houston procurando
jazz ou sexo ou rango e seguiram o espanhol
brilhante para conversar sobre a América e a Eternidade,
inútil tarefa, e assim embarcaram num navio
para a África, que desapareceram nos vulcões do México
nada deixando além da sombra das suas calças
rancheiras e a lava e a cinza da poesia espalhadas na
lareira Chicago, que reapareceram na Costa Oeste
investigando o FBI de barba e bermudas com grandes olhos
pacifistas e sensuais nas suas peles morenas,
distribuindo folhetos ininteligíveis,
que apagaram cigarros acesos nos seus braços
protestando contra o nevoeiro narcótico de tabaco
do Capitalismo,


que distribuíram panfletos supercomunistas em Union
Square, chorando e despindo-se enquanto as
sirenes de Los Alamos os afugentavam gemendo mais alto
que eles e gemiam pela Wall Street e
também gemia a balsa de Staten Island,
que caíram em prantos em brancos ginásios desportivos,
nus e trémulos diante da maquinaria de
outros esqueletos,
que morderam policias no pescoço e berraram de prazer
nos carros de presos por não terem
cometido outro crime a não ser a sua transacção
pederástica e tóxica,
que uivaram de joelhos no Metro e foram arrancados do
telhado sacudindo genitais e manuscritos,
que se deixaram foder no rabo por motociclistas
santificados e urraram de prazer,
que enrabaram e foram enrabados por esses serafins
humanos, os marinheiros, carícias de amor
atlântico e caribeano,
que fizeram amor pela manhã e ao cair da tarde em
roseirais, na relva de jardins públicos e
cemitérios, espalhando livremente o seu sémem para quem
quisesse vir,
que soluçaram interminavelmente tentando gargalhar mas
acabaram choramingando atrás de um
tabique de banho turco onde o anjo loiro e nu veio
atravessá-los com a sua espada,
que perderam as suas crianças amadas para as três megeras
do destino, a megera caolha do dólar
heterossexual, a megera caolha que pisca de dentro do
ventre e a megera caolha que só sabe ficar
plantada sobre o seu rabo retalhando os dourados fios
intelectuais do tear do artesão,
que copularam em êxtase insaciável com uma garrafa de
cerveja, uma namorada, um maço de
cigarros, uma vela, e caíram da cama e continuaram
pelo assoalho e pelo corredor e terminaram
desmaiando contra a parede com uma visão da cona
final e acabaram sufocando um derradeiro
lampejo de consciência,
que adoçaram as trepadas de um milhão de raparigas
trémulas ao anoitecer, acordaram de olhos
vermelhos no dia seguinte mesmo assim prontos para
adoçar trepadas na aurora, rabos luminosos
nos celeiros e nus no lago,
que foram foder em Colorado numa miriade de carros
roubados à noite, N.C. herói secreto destes
poemas, garanhão e Adonis de Denver — prazer ao
lembrar das suas incontáveis trepadas com
miúdas em terrenos baldios & pátios dos fundos de
restaurantes de beira de estrada, raquíticas
fileiras de poltronas de cinema, picos de montanha,
cavernas ou com esquálidas garçonetes no
familiar levantar de saias solitário à beira da
estrada & especialmente secretos solipsismos de
mictórios de postos de gasolina & becos da cidade
natal também,
que se apagaram em longos filmes sórdidos, foram
transportados em sonho, acordaram num
Manhattan súbito e conseguiram voltar com uma
impiedosa ressaca de adegas de Tokay e o horror
dos sonhos de ferro da Terceira Avenida & cambalearam
até as agências de emprego,
que caminharam a noite toda com os sapatos cheios de
sangue pelo cais coberto por montões de
neve, esperando que se abrisse uma porta no Bast River
dando num quarto cheio de vapor e ópio,
que criaram grandes dramas suicidas nos penhascos de
apartamentos do Hudson à luz de holofote
anti-aéreo da lua & as suas cabeças receberão coroas de
louro no esquecimento,
que comeram o ensopado de cordeiro da imaginação ou
digeriram o caranguejo do fundo lodoso dos
rios de Bovery,
que choraram diante do romance das ruas com os seus
carrinhos de mão cheios de cebola e péssima
música,


que ficaram sentados em caixotes respirando a
escuridão sob a ponte e ergueram-se para construir
clavicêmbalos nos seus sótãos,
que tossiram num sexto andar do Harlem coroado de
chamas sob um céu tuberculoso rodeados
pelos caixotes de laranja da teologia,
que rabiscaram a noite toda deitando e rolando sobre
invocações sublimes que ao amanhecer
amarelado revelaram-se versos de tagarelice sem
sentido,
que cozinharam animais apodrecidos, pulmão coração pé
rabo borsht & tortillas sonhando com o
puro reino vegetal,
que se atiraram sob caminhões de carne em busca de um ovo,
que atiraram os seus relógios do telhado fazendo o seu lance
de aposta pela Eternidade fora do Tempo & os
despertadores caíram nas suas cabeças por todos os
dias da década seguinte,
que cortaram os seus pulsos sem resultado por três vezes
seguidas, desistiram e foram obrigados a
abrir lojas de antiguidades onde acharam que estavam
ficando velhos e choraram,
que foram queimados vivos em seus inocentes ternos de
flanela em Madison Avenue no meio das
rajadas de versos de chumbo & o contido estrondo dos
batalhões de ferro da moda & os guinchos de
nitroglicerina das bichas da propaganda & o gás
mostarda de sinistros editores inteligentes ou foram
atropelados pelos táxis bêbedos da Realidade Absoluta,
que se lançaram da Ponte de Brooklyn, isto realmente
aconteceu e partiram esquecidos e
desconhecidos para dentro da espectral confusão das
ruelas de sopa & carros de bombeiros de
Chinatown, nem mesmo uma cerveja de graça,
que cantaram desesperados nas janelas, jogaram-se pela
janela do metro, saltaram no imundo rio
Passaic, pularam nos braços dos negros, choraram pela
rua afora, dançaram sobre garrafas
quebradas de vinho descalços arrebentando nostálgicos
discos de jazz europeu dos anos 30 na
Alemanha, terminaram o whisky e vomitaram gemendo no
toalete sangrento, lamentações nos
ouvidos e o sopro de colossais apitos a vapor,
que mandaram brasa pelas rodovias do passado viajando
pela solidão da vigília de cadeia do
Golgota de carro envenenado de cada um ou então a
encarnação do Jazz de Birmingham,
que guiaram atravessando o país durante setenta e duas
horas para saber se eu tinha tido uma visão
ou se tu tinhas tido uma visão ou se ele tinha tido
uma visão para descobrir a Eternidade,
que viajaram para Denver, que morreram em Denver, que
retornaram a Denver & esperaram em
vão, que espreitaram Denver & ficaram parados pensando
& solitários em Denver e finalmente
partiram para descobrir o Tempo & agora Denver está
saudosa dos seus heróis,
que caíram de joelhos em catedrais sem esperança
rezando pela sua salvação e luz e peito até que a
alma iluminasse o seu cabelo por um segundo,

que se rebentaram nas suas mentes na prisão
aguardando impossíveis criminosos de cabeça
dourada e o encanto da realidade nos seus corações que
entoavam suaves blues de Alcatraz,
que se recolheram ao México para cultivar um vício ou
as Montanhas Rochosas para o suave Buda
ou Tanger para os miúdos ou Pacífico Sul para a
locomotiva negra ou Harvard para Narciso para o
cemitério de Woodlawn para a coroa de flores para o
túmulo,

que exigiram exames de sanidade mental acusando o
rádio de hipnotismo & foram deixados com a
sua loucura & as suas mãos & um júri suspeito,
que jogaram salada de batata em conferencistas da
Universidade de Nova Iorque sobre Dadaísmo e
em seguida se apresentaram nos degraus de granito do
manicómio com cabeças raspadas e fala de
arlequim sobre suicídio, exigindo lobotomia imediata,
e que em lugar disso receberam o vazio concreto da
insulina metrasol choque eléctrico hidroterapia
psicoterapia terapia ocupacional pingue-pongue &
amnésia,
que num protesto sem humor viraram apenas uma mesa
simbólica de pingue-pongue, mergulhando
logo a seguir na catatonia,
voltando anos depois, realmente calvos excepto uma
peruca de sangue e lágrimas e dedos para a
visível condenação de louco nas celas das
cidades-manicómio do Leste,
Pilgrim State, Rockland, Greystone, seus corredores
fétidos, lutando com os ecos da alma,
agitando-se e rolando e balançando no banco de solidão
à meia-noite dos domínios de mausoléu
druídico do amor, o sonho da vida um pesadelo, corpos
transformados em pedras tão pesadas
quanto a lua, com a mãe finalmente ****** e o último
livro fantástico atirado pela janela do cortiço e
a última porta fechada às 4 da madrugada e o último
telefone arremessado contra a parede em
resposta e o último quarto mobilado esvaziado até à
última peça de mobília mental, uma rosa de
papel amarelo retorcida num cabide de arame do armário
e até mesmo isso imaginário, nada mais
que um bocadinho esperançoso de alucinação —
ah, Carl, enquanto tu não estiveres a salvo eu não
estarei a salvo e agora tu estás inteiramente
mergulhado no caldo animal total do tempo —
e que por isso correram pelas ruas geladas obcecados
por um súbito clarão da alquimia do uso da
elipse do catálogo do metro & do plano vibratório
que sonharam e abriram brechas encamadas no Tempo &
Espaço através de imagens justapostas e
capturaram o arranjo da alma entre 2 imagens visuais e
reuniram os verbos elementares e juntaram
o substantivo e o choque de consciência saltando numa
sensação de Pater Omnipotens Aeterni Deus,
para recriar a sintaxe e a medida da pobre prosa
humana e ficaram parados à sua frente, mudos e
inteligentes e trémulos de vergonha, rejeitados
todavia expondo a alma para conformar-se ao ritmo
do pensamento na sua cabeça nua e infinita,
o vagabundo louco e Beat angelical no Tempo,
desconhecido mas mesmo assim deixando aqui o que
houver para ser dito no tempo após a morte,
e se reergueram reencarnados na roupagem
fantasmagórica do jazz no espectro de trompa dourada
da banda musical e fizeram soar o sofrimento da mente
nua da América pelo amor num grito de
saxofone de eli eli lama lama sabactani que fez com
que as cidades tremessem até ao seu último rádio,
com o coração absoluto do poema da vida arrancado para
fora dos seus corpos bom para comer por
mais mil anos.

(Allen Ginsberg)

11/12/2012



É bem verdade que o mundo ta foda. 
São muitos perigos e abismos e pedras.


Mas um pouquinho de felicidade
pode brotar sem motivos do riso.   
Experimente.


Vá! pegue o violão, toque Beatles.

(Eliano Silva)

14/10/2012

A praga




Destruamos bibliotecas
Alcovas dos inquietos,
Indivíduos perigosíssimos.
Construamos em seu sítio baldio
Os templos religiosos,
Incomodarão menos que uma pedra no sapato impecável.
Vamos desabrigar esses poetas
Que ameaçam,
Que blasfemam,
Que atentam contra a sobrevivência
E falam sobre uma tal vida.

(Eliano Silva)

11/10/2012

Terra Sonâmbula






Um relato inquietante sobre a insistência de sobreviver numa “terra sonâmbula”, onde os estouros de bombas e tiros se fazem trilha sonora que ecoa por de trás das vozes dos personagens que vagam nesse romance de Mia Couto.
A guerra civil decorrente após a independência do Moçambique em 1975 é o tempo e espaço das narrativas que surge dentro desta obra.
Fui tomado logo nas primeiras páginas. Romance narrado de forma arquitetônica, em quê os personagens contam suas estórias como quem tira um peso das costas e como quem sente a necessidade de deixar ensinamentos para a posterioridade. Uma literatura que dialoga com a realidade de uma forma fantástica e tem o lirismo da África negra, onde a oratória predomina, a escrita do autor nos remete a uma dessas rodas em que um idoso, contador de memórias, transforma em arte a vida longa sofrida e cheia de folclore que levara.



-Não gosto de pretos, Kindzu.
-Como? Então gosta de brancos?
-Também não.
-Já sei: gosta de indianos, gosta da sua raça.
-Não. Eu gosto de homens que não tem raça.

(Mia Couto)


   





(Eliano Silva)           

31/07/2012

Abstinência

A carne pede,
cede como quem cansa,
a ânsia da carne fede.
Perfume de lembrança.

dança
pede 
cede
transa

A pele chama,
a carne pede,
a carne cedida
como quem perde,
a mordida fere,
a carne ferida geme.

Treme como quem goza,
como quem teme.
Carne viçosa.


(Eliano Silva)

26/04/2012

poética

Em 1930 Manuel Bandeira publica um livro, custeado do seu próprio bolso, que o consagraria com poemas como NÃO SEI DANÇAR, O CÁCTO, PNEUMOTÓRAX, entre outros, eu designo POÉTICA


Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o
cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas


Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis


Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora
de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário
do amante exemplar com cem modelos de cartas
e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.


Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare



- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.



23/04/2012

O casal Amado





"Ave maria! Como falava bem! Que orador entusiasta! Quanto charme!". Exterioriza  Zélia Gattai sua admiração por Jorge Amado nos tempos em que ele era um jovem escritor, militante, presidente da delegação baiana de escritores no primeiro congresso de escritores brasileiros.
O ano era 1945, tempos de ditadura no Brasil. Jorge Amado se encontrava clandestinamente no estado de São Paulo, já que estava proibido de sair da Bahia depois de voltar do exílio na Argentina e Uruguai. Retomou suas atividades no jornal O Imperial, colaborando com crônicas e contos. Porém Jorge era inquieto de mais, idealista de mais para cruzar os braços diante do que acontecia no país, desobedecendo seja lá quem quer que fosse, seguiu em direção a São Paulo, filiado ao PCB protestou contra a guerra e pela a anistia de presos políticos. E é nessa situação que se dá o encontro de Jorge amado e Zélia Gattai, com quem ele se casa.
Jorge tinha fama de galanteador, vivia às voltas de mulheres bonitas e intelectuais. Zélia era uma moça tímida, segundo sua própria mãe, despreparada para ser companheira de tal personalidade, no fim das contas, ela acabaria largada quando o rapaz cansasse, era uma questão de tempo. Ao contrário disso, os 56 de convivência com Jorge transformou Zélia em uma escritora respeitada e só a morte os separou em 2001. Nem no fim da vida, quando Jorge passava o dia de olhos fechados, quieto, ele deixou de ama-la, lembrava com detalhes como ocorrera o primeiro beijo e discutindo qual dos dois teria tido essa iniciativa, colocando sempre a culpa em Zélia. Na verdade, os dois se esbarraram na cozinha do apartamento de Jorge onde acontecia um encontro entre artistas, propositalmente, não se sabe, ele a chamou para ajudá-lo a pegar copos e bebidas e acidentalmente aconteceu o primeiro e breve beijo do casal.
Aquele beijo selou o início da parceria que durou anos e rendeu muitos romances a Jorge Amado. Eles se casaram e foram morar no Rio de janeiro, numa chácara afastada de barulho, propício ao trabalho de Jorge, como escritor. Além de contar com essa calmaria, ele contava com os dez dedos de Zélia, ela tinha curso de datilografia e passava a limpo todos os seus escritos, foi assim sempre. Apoiando seu marido em seus devaneios ela aprendeu muito sobre os processos de criação de um escritor com a genialidade de Jorge.
Um dia estranhou o fato dele não está trabalhando, como nos outro dias, e sim observando o galinheiro sem nenhum motivo aparente, não sabia ela, que estava sim trabalhando, estava escrevendo em sua cabeça o que seria passado para o papel posteriormente.
Nessa época Jorge era deputado federal, concluiu o mandato sobre fortes pressões ao partido, sofrendo ameaças de morte, até ser exilado novamente de seu país. Ficaram para viajar depois a mulher e o filho recém- nascido, João Jorge Amado, que quatro meses após seguiram ao seu encontro. Por falta de dinheiro não viajaram juntos, apesar de Jorge ser um escritor renomado, passava por problemas financeiros, já que a ditadura afetava a venda de seus livros no Brasil.
O exílio na Europa resultou em novas amizades entre a família amado e escritores, artistas plásticos, músicos e personalidades importantes do velho continente. Recebiam visitas de Sartre, Pablo Picasso, Paul Éluard e outros. Nesta lista de intelectuais estavam também dois amigos de Jorge, assim como ele exilados de seus países, os latinos Pablo Neruda e Nicolás Guillén, que viviam disputando a vaga de padrinho dos filhos Zélia e Jorge. O nascimento da filha do casal, Paloma, aconteceu às voltas dessa discussão, travada em um quarto de maternidade na República Tcheca. A estadia na Europa da família Amado, rendeu estórias e muitos momentos alegres. Ria-se muito, conversava-se muito. Jorge escreveu, ganhou prêmio, fez amizades para vida. Foram felizes até que o clima de tensão voltou a fazer parte do quotidiano da família, amigos que foram considerados heróis do socialismo, passaram a ser acusados de traição.
Jorge Amado em sua posse.
O exílio acabou em 1952, eles voltam para o Brasil quando a situação no país dera uma acalmada. Jorge abandona a política em fim, e dedica-se exclusivamente a atividade de escrever, funda um jornal, batizado Paratodos, no Rio de Janeiro, em parceria com outros intelectuais, mas por falta de patrocínio dura apenas 3 anos. Nessa época ele escreve um de seus romances mais lidos, Gabriela, cravo e canela. Alvo de críticas, foi traduzido em diversos países. Em 1961 é eleito à Academia Brasileira de Letras, cadeira 23, a mesma foi ocupada por José de Alencar, Machado de Assis entre outros. Em 63 muda com a família para a Bahia. 
Tem uma estória que baiano é preguiçoso, não sei se confere, mas foi o que a mãe de Jorge disse referindo-se aos amigos que frequentavam a sua casa em Salvador. “é tudo artista e artista trabalha? Pra mim é tudo vagabundo” e as visitas do casal eram ilustres, por querer resumir a história, cito apenas o diretor e ator de cinema Roman Polanski, seu grande amigo Caymmi, o filósofo Sartre e por ai vai.
O tempo passa, os filhos do casal crescem em meio a homens e mulheres geniais. Na Bahia Jorge escreve, obras importantes, como Tieta do Agreste. Com a venda dos direitos autorais desta obra, ele compra um apartamento em Paris, onde passa momentos inesquecíveis com Zélia, como foi o caso de uma vez em seu aniversário, ela acordar coberta de pétalas de flores, fazendo-a lembrar de quando se conheceram na mocidade, Jorge nessa ocasião houvera, da mesma forma, derramado um mar de flores sobre ela.
O acervo de Jorge nesse tempo, já não cabia em casa de tão vasto, juntando esse fator com o desejo do escritor em semear a arte e a cultura, em 1986 nasce a fundação Casa Jorge Amado.

Zélia havia gozado da vida ao lado de Jorge, agora tinha o prazer de envelhecer com ele e sofrer ao ver que já não contava com sua saúde, andava com o coração doente, nosso Amado. Várias vezes tiveram que sair às pressas para o pronto-socorro e frequentemente era atendido em casa por um cardiologista amigo. Mas creio que a tristeza de Jorge no fim da vida era proveniente de seu problema de visão que o impedia de ler e escrever, baseando-me em suas palavras em um discurso breve que fizera ao ser homenageado na Feira do Livro em Paris, onde com voz firme apesar da debilitada saúde, Jorge afirma: “Escrever, é para mim, o mesmo que viver”.
 Ele já não escrevia, passava o dia quieto, triste, velho. E aos 89 anos, Jorge se vai, deixando à Zélia uma tristeza ímpar. Numa tentativa de animar-se, ela faz uma viagem a Porto Alegre em companhia de seu filho e sua nora. Encontra com outra viúva, mulher de Érico Veríssimo, amicíssimo de seu querido Jorge, com a qual, conversa sobre a sorte tamanha que a vida lhes proporcionou, por terem sido esposas de grandes homens. “Zélia, pense que você, como eu, somos mulheres privilegiadas” disse Mafalda.
Em 2002, Zélia, junta com seus filhos, João Jorge Amado e Paloma Jorge Amado, começa a escrever um livro, em qual está três relatos de amor ao marido e pai, Intitulado “Jorge Amado um baiano romântico e sensual”.  No mesmo ano, Zélia ocupa a mesma cadeira que pertencia a seu marido na Academia Brasileira de Letras. Se vai em 2008 aos 91, seu corpo foi cremado e as cinzas espalhadas pela casa do Rio Vermelho igualmente como foi feito com Jorge Amado.

 (Eliano Silva)

Referência:
AMADO, Zélia Gattai; AMADO, Paloma Jorge; AMADO, João Jorge. Um Baiano Romântico e Sensual. Rio de Janeiro: Editora Record - 2002. 231 p

19/04/2012

Doce solidão




Hoje acordei mais cedo, tratei de pôr em dia os meus deveres
olho para as ruas ainda tão desertas, o silêncio grita.
Tirei a poeira dos meus livros ignorando as recomendações do médico (nada de poeira, não é bom para sua alergia).
Encontrei dedicatórias antigas, coisas como "Nêgo, você é meu maluco favorito", " de humano para poeta", em fim.
Almocei sozinho ouvindo um som, eram discos esquecidos na gaveta, lendas do rock
por assim dizer sobre Sebastian Bach e black Sabbath.
Tirei umas fotos do dia para capturar o momento, solidão devidamente fotografada.
Com as portas ainda fechadas ocorreu uma coisa engraçada.
Acendi um dos cigarros que meu irmão esqueceu sobre a mesa da cozinha,
queria me sentir como aqueles prosadores que buscam na fumaça que entra e sai do seus pulmões a inspiração que falta para dar início a seu próximo romance. Mas eu não parava de turcir, apaguei o cigarro na metade, desistindo de ser escritor.
Peguei o violão, soei três acordes e o larguei.
Resolvi sair como que tem para aonde ir, mas não tinha.
Liguei a TV desliguei a TV , sentei na cama, na calçada, na cadeira, no banco da praça, olhei o quotidiano.
Pego o celular, 3 da tarde, nenhuma ligação perdida. Que tédio.
Amanhã acordarei ao meio dia.


( Eliano Silva)

Só pode ser amor... Só sei pensar em você.



Vou atravessar a rua sem olhar pra os lados,
dormir com as janelas abertas
 pra  pegar um leve resfriado
ou fingir uma febre boba
pra você cuidar de mim.
Vou errar com todo mundo
pra você me defender,
quando quiserem me machucar.




Vou improvisar na pentatônica errada,
num solo confuso de guitarra,
irão falar "o que tá há com ele, o que tá acontecendo, tá louco,
só pode ser amor..."
só sei pensar em você.

(Eliano Morello, poesia dedicada a Mariane)






Um beijo na indecisão

Nos rascunhos tão confusos
Que sobrou da poesia,
Tudo que for pejorativo,
No discurso de um louco,

Numa fruta,
No liquidificador,
No aprendiz de violão,
Na posição da mão esquerda,

No velho músico de blues,
Na distorção,
Numa partitura
De um samba-canção,

Numa bicicleta,
Num poema de Quintana,
Num romance,
Numa cigana,

Numa prosa machadiana,
Numa respiração,
No ouvido de tão perto,
Na vontade de beijar,
Uma boca sem batom,
Mas a indecisão.

Em tudo que não tenho certeza
Nem adianta esses abstratos.
Em tudo que é preciso decifrar, 
Me poupe o tempo,
Diga sim ou não.

(Eliano Silva)

O homem que come





A poesia nos meus dedos lhes mostram a minha cara sem a maquiagem do quotidiano.
Os homens se entregam aos seus maridos e são domesticados.
Chamem-me de poeta.
O poeta sem as rimas exigidas pelos  burocráticos críticos literários.
(literatura burocrática)
e não me deem atenção.

Mostrem-me suas armas, vem vindo os outros fantasiados de felizes
Vem vindo dos seus trabalhos sem sentidos e
depois de se entregarem aos seus maridos
 vão dormir cansados de fingirem.
Os sorrisos se tornam tão amarelados depois de fingirem.
Os sorrisos e os orgasmos.

Tirem um dia para ficarem bêbados, senhores.
E preparem-se para a segunda feira.
Vamos, criatura. Vê se não chora ébrio.
Na segunda tudo voltará a normalidade crônica.

Nem só de escritório vive o homem.
Homens condenados a realidade.
Livrem-se das forcas que são vossas gravatas.


( Eliano Silva)



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