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05/01/2013

Entorpecida 
por essa ideia vencida
de liberdade

Em terra de cego quem tem os dois olhos
tropeça na ignorância
A reclusão travestida de libertação

Põe no tronco e açoita
Deixa marcas no dorso




(Eliano Silva)

02/01/2013

Entrevista com Mia Couto

Mia Couto é um escritor moçambicano que faz literatura em português. As suas obras são caracterizadas por forte identidade cultural de seu país e é nesse aspecto que se assemelha com a literatura brasileira. Nesta entrevista, ele fala sobre a influencia de Guimarães Rosa em seu texto.



Grande Sertão: Savana

                                                                                                por João Correia Filho, De Maputo

Quando Guimarães Rosa começou a influenciar a sua obra?

Depois que escrevi meu primeiro livro de contos, vozes anoitecidas (1987). Rosa tinha feito uma espécie de recriação do português, o que me tocou muito, porque havia na época uma necessidade quase existencial dos escritores moçambicanos em se verem livres de um português que já não lhes servia, que era uma espécie de vestuário que tinha sido feito à medida de outra cultura, já um pouco desajustada, uma espécie de um termo fabricado com tecido e padrões que não tinham absolutamente a ver com a realidade moçambicana. E nós sabíamos que o Brasil havia feito isso há mais de dois séculos, havia vencido essa briga para tornar sua língua mais plástica, mais adequada, mais próxima da oralidade. Aliás, é justamente isso que Guimarães faz, ele abre a porta às vozes, aquilo que está latente na oralidade de seu país.

Como foi o primeiro contanto com a obra dele?

O escritor angolano Luandino Vieira havia dito numa entrevista que tinha sido marcado pela obra de Rosa. Era um autor que eu não conhecia, pois estávamos em guerra e tínhamos pouca ligação com o Brasil. Só fui conhecer sua obra um ano depois, em 1988, quando um amigo brasileiro trouxe fotocópias de uns textos do Rosa, entre as quais estava A terceira margem do rio(do livro Primeiras Estórias ,de 1962). Foi um abalo sísmico. A uma certa altura eu não o leio, sou atirado para fora da página, começo a escutar vozes e tenho de regressar à página como se de fato aquilo que eu encontrei estivesse fora da página, que é este o local da oralidade. Rosa foi capaz de deixar que a lógica da escrita fosse levada a um outro tipo de lógica. Esse é o grande achado. Não saí igual depois de ler aquele texto e, quando escrevi meu segundo livro, Cada homem é uma raça (1990), já estava muito marcado por esse contato, por esse diálogo.

A oralidade de sua obra tem a ver com a dele?

Aqui em Moçambique não é possível fugir da oralidade. Posso dar vários exemplos em que as pessoas podem discutir a coisa mais sagrada e mais séria do mundo, economia, por exemplo, mas o fazem contando isso com histórias, com aquilo que são os conceitos da oralidade, e não estão ainda subjugados pela gramática funcional. É nesse sentido que costumo dizer que poderíamos ser todos ótimos escritores, porque manipulamos bem a forma de contar as histórias. Além disso, em Moçambique há um convívio entre várias línguas maternas do pais, o que implica que cada um de nós seja um tradutor em diferentes dimensões. Há línguas aqui que não têm palavras para “natureza”, “meio ambiente”, às vezes “Deus”.

À primeira vista, parece complicado...

...Mas é muito enriquecedor. E é aí que se busca uma linguagem que é própria, criativa e vai além da questão literária, pois valoriza outras lógicas, que estão para além da lógica da escrita. Esse é o modo como fui abraçado e abracei a obra de Guimarães Rosa, por uma questão mais que literária. Tem a ver com aquele jogo que ele faz de apostar numa linguagem que seja construtora de identidade.

Todos os moçambicanos poderiam ser escritores, mas estamos tratando de um país que tem alto índice de analfabetismo.

Não entendo que a luta contra o analfabetismo tenha de ser feita esmagando a oralidade. Não as vejo como coisas contraditórias. A maneira como são construídos os sistemas de saber modernos, ao se eliminar o analfabetismo também se elimina a oralidade, classificando-a. e a oralidade não é a ausência do saber da escrita, a oralidade é um outro saber, uma outra maneira de olhar o mundo.

Em Terra sonâmbula, após a morte do pai, o filho leva comida todos os dias para o falecido, como oferenda, e a comida desaparece. Há passagem semelhante em A terceira margem do rio.

É muito fácil perceber esses cruzamentos, pois essa prática de levar comida pra quem já não está presente é comum na África e ao redor do mundo. Aqui os mortos estão sempre presente, os mortos não morrem. Aqui se leva comida para o falecido, não é algo que invento. Simplesmente coloco num outro contexto.

Você sente algum preconceito por ser branco num país africano?

Há momentos em que tenho de pagar uma espécie de imposto, uma taxa de raça, mas acho que isso é compreensível num país que teve essa situação de racismo agressiva. Não fico negativamente afetado, pois em geral o que ouço nas ruas é as pessoas dizerem: “Você é nosso”. Além disso, em quase todas as línguas daqui não há uma palavra para dizer branco ou preto, como cor de pele, mas há a palavra “muzungo” que quer dizer que a pessoa é uma estranha, uma estrangeira. O recém-chegado será “muzungo”, mesmo se for negro, contanto que não fizer parte do lugar. Brancos e negros são caracterizados da mesma maneira. Se você demonstrar que fala a língua deles e está por dentro do que acontece ali, já não é mais “muzungo”. A cor da pele não é tão determinante assim para aquilo que se determina como sendo  o outro.

Quando a oralidade entra definitivamente na sua obra?

A diferença está na maneira como sai, não na maneira como entra. Todos nós tivemos vozes, que podem ser do pai, do avô, dos tios, e que nos encarnam. O processo de encantamento é que é a raiz, quando nos deixamos encantar pelas primeiras vezes. No meu caso, tive uma sorte enorme, pois minha mãe é uma grande contadora de histórias. Está viva, tem 90 anos, e até hoje conta historias com uma capacidade de criar brilhos e cores muito acentuada. Meus pais eram imigrantes portugueses, vieram só os dois, sem família, e ela se transmutava na família inteira: era avó, bisavó, tia, tio, sempre por via das historias.

Há alguma identificação de Moçambique com o sertão roseano?

Sim, posso dizer que sim. Mas o curioso é que a própria palavra “sertão” também foi introduzida aqui pelos portugueses. Os livros que descrevem as viagens dos exploradores portugueses, no século 19, falam do sertão, embora a palavra tenha morrido por aqui. Eles queriam designar algo que realmente tinha de fato paralelo em Moçambique, algo paisagístico, geográfico, mas a palavra não viveu. Aqui, o que é equivalente é a savana, esta zona de savana que é muito variada, mais densa menos densa, mas tem um sentido de não lugar – no sentido do infinito, que não tem começo e não tem fim, como disse o próprio Rosa. E tem uma sonoridade muito interessante, algo que eu já tratei em algum lugar, porque sertão tem o verbo “ser”, e o “tão” que é uma medida de infinito, algo que é indizível.

A invenção de palavras é uma forma de criação literária?

Sempre que fiz isso não foi porque tinha a intenção de fazer bonito. Nem estava em busca de algo linguístico, simplesmente. Mas porque há coisas que só podem ser ditas assim. A intenção é revelar, acho que o verbo é esse mesmo, no sentido de encontrar uma linguagem outra, que convide o leitor a esta cumplicidade na construção de uma outra linguagem. Não é intenção estética, não é uma técnica, mas é algo que já havia em mim, como uma urgência. Como é que eu vou dar nomes às coisas e livrar-me dessa carga da língua? Como vou retirar Portugal desse meu português? Venho da poesia, fui antes de tudo um poeta e, portanto, tenho na palavra a base de tudo. Sou artífice da palavra. Para mim, a palavra é tão valida quanto a historia. Busco sempre restituir algo divino à palavra e também usá-la como ferramenta. Escrevo porque tenho o prazer de profanar algo que é cotidiano. Às vezes a palavra até está lá, é preciso destapá-la, tirar o pó, uma poeira que a estava cobrindo e pronto – ela é revelada, redescoberta.

Muitas vezes, como fez Rosa, basta inverter a palavra na frase, não?

Sim, muitas vezes na reconstrução de uma frase feita; outras, no provérbio. Rosa trabalhava naquilo que podemos chamar de improvérbios. Ele os torna improváveis, faz com que constituam um sentido de imprevisibilidade. Isto é uma coisa que faço com os meus filhos, ensiná-los para que eles sejam donos desse prazer, de construir sua própria língua, de surpreender-se. Obviamente que nós usamos essa língua social, que está ali feita, que é patrimônio, mas se você não tem a capacidade de torna-la um brinquedo, de usá-la como uma brincadeira, então perde uma oportunidade de ser feliz dia a dia.

E seus filhos conseguem?

Acho que sim, mas isso depende muito da capacidade de ser feliz num território de noutro. Eu, por exemplo, fu uma criança muito feliz, mas com grandes infelicidade, algumas inventadas, pensava que era mal amado, desprezado, que meus pais não me davam mais atenção, aquelas coisas que os meninos inventam para si. Pensava que era muito feio, e não tinha graça... Bom... eu vivia isso tudo. Era uma criança felicíssima, mas brigava contra essas infelicidades inventadas, o que sempre me levava a procurar outros sentidos, ir pro lado avesso.

Você fala em infelicidades inventadas, mas viveu períodos de guerra. Esse é o motivo de esse tema ser tão presente na sua obra?

Vou te contar um episodio ocorrido quando eu tinha 17 anos e que pode ilustrar essa sua pergunta. Fui militante da Frelimo, na altura na clandestinidade, e havia uma coisa curiosa: para oferecer-se à luta, havia uma comissão, perante a qual você tinha de fazer algo que chamávamos de “narração do sofrimento”. Muito bonito o termo, mas você tinha que provar que merecia confiança e sua candidatura à causa revolucionária era legitima. Essa legitimação era feita pelo sofrimento. Comigo estavam pessoas com 30, 40 anos, pessoas pobres, de outra condição social, todos negros que viviam sob um regime de ditadura, um regime racista. Enquanto esperava minha vez para fazer a narrativa, eu me perguntava. O que sofri? Quais foram meus reais sofrimentos? Tinha de pensar rápido quais seriam esses sofrimentos que não tive nunca, para justificar-me. Pensei que não iam me aceitar e , no final, quando me chamaram, disse mais ou menos assim: “Eu sofri por causa de ver sofrimento dos outros. Não passei fome, nunca tive carência, nunca fui discriminado racialmente. Sou parte de uma elite privilegiada, mas todo o resto que inventei como ilusão de sofrimento foi tão real para mim como o sofrimento desses que passaram aqui”. Ao final, alguém me perguntou: “Você é poeta, não é?” Na altura, eu tinha apenas publicado uns textos que ninguém conhecia, em jornal. “Sou”. E eles me disseram: “Precisamos muito de poesia”. E fui aceito.

 Entrevista feita por João Correia Filho
publicada na revista Metáfora, ano 1- número 1- setembro 2011 

30/12/2012

Feliz ano velho

Marcelo Rubens Paiva, escritor brasileiro, nascido em São Paulo em 1959.




Uma história relatada sob um corpo imóvel. Marcelo Rubens Paiva depois de um acidente que o deixa tetraplégico narra como foram seus 20 anos até ali, bem vividos, com intimidade, a ponto do leitor se sentir seu confidente amigo.


Estudante de engenharia agrícola na Unicamp, músico amador, várias garotas na sua, sexo e maconha.


Um mergulho estilo Tio Patinhas em um lago de meio metro de profundidade, o fará passar aquele réveillon de 1979 para 1980 no hospital com apenas ‘’um par de olhos, nariz, ouvido e boca’’ como ele conta, “feliz ano velho, adeus, ano novo”.


Apesar da difícil realidade em que se encontra, Marcelo nos faz rir com um humor irônico com que conta, através de flashback, suas aventuras e sua recuperação sempre às voltas de amigos, família e namorada. O que era pra ser uma história triste, e não deixa de ser em alguns momentos, torna-se, no seu decorrer, um relato de superação e exemplo de amizade.



"Um livro emocionante sem ser piegas, crítico e irônico sem ser inocuamente agressivo. E mostra que apesar de tudo, Marcelo não perdeu a paixão pela vida. Paixão que lhe permite fazer boa literatura."

Veja


"Marcelo, aos invasores, opõe sua juventude, sua mente sadia. Escreve. Luta. Politizado. Não se entrega, não odeia. Compreende. Sacudiu a poeira, deu a volta por cima."

Folha de São Paulo

"A tragédia e o Humor, duas maneiras de ver o mundo em uma maravilhosa obra brasileira."
La Nacion (Argentina)

"Devemos aplaudir este jovem e talentoso escritor, que prova a capacidade de renovação da literatura latino-americana."
Die Zeit (Alemanha)

(Eliano Silva)

20/12/2012

Nação Crioula






José Eduardo Agualusa, escritor africano, de Angola.




O Nação Crioula foi o último navio negreiro a fazer a travessia do Atlântico, portando em seus porões os negros que serviriam de escravos no Brasil. O tráfico de africanos era um verdadeiro  atentando contra os direitos humanos.  Durante as longas viagens marítimas poucos resistiam às condições miseráveis, às moléstias e aos açoites a que eram submetidos, sabe-se que poucos dias após o embarque, os corpos começavam a se amontoar, e os devaneios dos que sobreviviam eram tantos que começavam a matar uns aos outros e a si mesmos.




Esta obra de Agualusa é antes de tudo uma estória de escravidão, não apenas dos que foram escravizados, mas dos que escravizaram.


Fradique Mendes é o personagem principal, que narra através de cartas, suas andanças, aventuras e sua paixão por Ana Olímpia, uma mulata de Angola, filha de uma escrava com um escravocrata e viúva de um rico traficante de negros que era adepto dos movimentos abolicionistas. Ana Olímpia irá se fazer presente no pensamento de Fradique desde quando ele a conhece e será destinatária de várias correspondências. Ele também escreverá a sua Madrinha madame Jouarre, e a seu amigo Eça de Queirós.


Embora Nação Crioula seja uma obra fictícia, ela nos remete muito realmente a realidade do século XIX, de modo que figuras reais da história do Brasil  aparecem, por exemplo, o importante abolicionista brasileiro, José do Patrocínio. Vale ressaltar que Fradique Medes é um personagem criado anos antes por Eça de Queirós e reaparece neste romance, tornando-o um livro recheado de intertextualidade.


É notável a crítica destinada a aristocracia. José Eduardo Agualusa aborda de maneira extremamente poética a questão social de Angola, Portugal e Brasil, expõe o modo de pensar de uma sociedade hipócrita, de maneira que quem estava sob as correntes e selas não eram os prisioneiros, escravos sim, mas livres, porque tinham uma liberdade que seus escravizadores nunca a teriam, a liberdade de espírito.


(Eliano Silva)

15/12/2012

A nova capa do meu blog remete rapidamente a Geração Beat, especificamente a Allen Ginsberg. O seu poema UIVO, nas ilustrações de Erick Drooker. Senhoras e senhores, eis o criador e a criatura:




 UIVO

Eu vi os expoentes da minha geração destruídos
pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de
madrugada em busca uma dose violenta de qualquer coisa
"hipsters" com cabeça de anjo ansiando pelo
antigo contacto celestial com o dínamo estrelado da
maquinaria da noite, que pobres, esfarrapados e
olheiras fundas, viajaram fumando sentados na
sobrenatural escuridão dos miseráveis apartamentos
sem água quente, flutuando sobre os tectos das
cidades contemplando jazz, que desnudaram os seus
Cérebros ao céu sob o Elevador e viram anjos maometanos
cambaleando iluminados nos telhados das casas dos
cómodos que passaram por universidades com olhos frios
e radiantes alucinando Arkansas e tragédias à luz de
William Blake entre os estudiosos da guerra, que
foram expulsos das universidades por serem loucos
& publicarem odes obscenas nas janelas do crânio,
que se refugiaram em quartos de paredes de pintura
descascada em roupa de baixo queimando seu dinheiro
em cestas de papel, escutando o Terror
através da parede.

Que foram detidos nas suas barbas púbicas voltando por
Laredo com um cinturão de marijuana para Nova Iorque, que
comeram fogo em hotéis mal-pintados ou beberam
terebentina em Paradise Alley, morreram
ou flagelaram seus os torsos noite após noite
com sonhos, com drogas, com pesadelos na vigília,
álcool e caralhos e intermináveis orgias,
incomparáveis ruas cegas sem saída de nuvem trémula e
clarão na mente pulando nos postes dos
pólos de Canadá & Paterson, iluminando completamente o
mundo imóvel do Tempo intermediário,
solidez de Peiote dos corredores, aurora de fundo de
quintal com verdes árvores de cemitério, bebedeira
de vinho nos telhados, fachadas de lojas de subúrbio
na luz cintilante de neon do tráfego na corrida
de cabeça feita de prazer, vibrações de sol e lua e
árvore no ronco de crepúsculo de inverno de
Brooklyn, declamações entre latas de lixo e a suave
soberana luz da mente,


que se acorrentaram aos vagões do metro para o
infindável percurso do Battery ao sagrado Bronx
de benzedrina até que o barulho das rodas e crianças
os trouxesse de volta, trémulos, a boca
rebentada e o despovoado deserto do cérebro
esvaziado de qualquer brilho na lúgubre luz do
zoológico, que afundaram a noite toda na luz
submarina de Bickford's, voltaram à tona e passaram
a tarde de cerveja choca no desolado Fuggazi's escutando
o matraquear da catástrofe na vitrola automática de
hidrogénio, que falaram setenta e duas horas sem parar
do parque ao bar ao Hospital Bellevue, do Museu
à Ponte de Brooklyn, batalhão perdido de debatedores
platónicos saltando dos gradis das escadas de emergência
dos parapeitos das janelas do Empire State da Lua,
tagarelando, berrando, vomitando, sussurrando factos e
lembranças e anedotas e viagens visuais e
choques nos hospitais e prisões e guerras,
intelectos inteiros regurgitados em recordação total
com os olhos brilhando por sete dias e noites,
carne para a sinagoga jogada na rua,
que desapareceram no Zen de Nova Jersey de lugar algum
deixando um rasto de cartões postais
ambíguos do Centro Cívico de Atlantic City,
sofrendo suores orientais, pulverizações tangerianas
nos ossos e enxaquecas da China por causa da
falta da droga no quarto pobremente mobiliado de
Newark, que deram voltas e voltas à meia-noite no pátio
da estação ferroviária perguntando-se onde ir e
foram, sem deixar corações partidos,
que acenderam cigarros em vagões de carga, vagões de
carga, vagões de carga que rumavam
ruidosamente pela neve até solitárias fazendas dentro
da noite do avô, que estudaram Plotino, Poe,
São João da Cruz, telepatia e bop-cabala pois o Cosmos
instintivamente vibrava a seus pés em Kansas,
que passaram solitários pelas ruas de Idaho procurando
anjos índios e visionários que eram anjos
índios e visionários, que só acharam que estavam
loucos quando Baltimore apareceu em êxtase
sobrenatural, que pularam em limusines com o chinês
de Oklahoma no impulso da chuva de inverno na luz das
ruas de cidade pequena à meia-noite,
que vaguearam famintos e sós por Houston procurando
jazz ou sexo ou rango e seguiram o espanhol
brilhante para conversar sobre a América e a Eternidade,
inútil tarefa, e assim embarcaram num navio
para a África, que desapareceram nos vulcões do México
nada deixando além da sombra das suas calças
rancheiras e a lava e a cinza da poesia espalhadas na
lareira Chicago, que reapareceram na Costa Oeste
investigando o FBI de barba e bermudas com grandes olhos
pacifistas e sensuais nas suas peles morenas,
distribuindo folhetos ininteligíveis,
que apagaram cigarros acesos nos seus braços
protestando contra o nevoeiro narcótico de tabaco
do Capitalismo,


que distribuíram panfletos supercomunistas em Union
Square, chorando e despindo-se enquanto as
sirenes de Los Alamos os afugentavam gemendo mais alto
que eles e gemiam pela Wall Street e
também gemia a balsa de Staten Island,
que caíram em prantos em brancos ginásios desportivos,
nus e trémulos diante da maquinaria de
outros esqueletos,
que morderam policias no pescoço e berraram de prazer
nos carros de presos por não terem
cometido outro crime a não ser a sua transacção
pederástica e tóxica,
que uivaram de joelhos no Metro e foram arrancados do
telhado sacudindo genitais e manuscritos,
que se deixaram foder no rabo por motociclistas
santificados e urraram de prazer,
que enrabaram e foram enrabados por esses serafins
humanos, os marinheiros, carícias de amor
atlântico e caribeano,
que fizeram amor pela manhã e ao cair da tarde em
roseirais, na relva de jardins públicos e
cemitérios, espalhando livremente o seu sémem para quem
quisesse vir,
que soluçaram interminavelmente tentando gargalhar mas
acabaram choramingando atrás de um
tabique de banho turco onde o anjo loiro e nu veio
atravessá-los com a sua espada,
que perderam as suas crianças amadas para as três megeras
do destino, a megera caolha do dólar
heterossexual, a megera caolha que pisca de dentro do
ventre e a megera caolha que só sabe ficar
plantada sobre o seu rabo retalhando os dourados fios
intelectuais do tear do artesão,
que copularam em êxtase insaciável com uma garrafa de
cerveja, uma namorada, um maço de
cigarros, uma vela, e caíram da cama e continuaram
pelo assoalho e pelo corredor e terminaram
desmaiando contra a parede com uma visão da cona
final e acabaram sufocando um derradeiro
lampejo de consciência,
que adoçaram as trepadas de um milhão de raparigas
trémulas ao anoitecer, acordaram de olhos
vermelhos no dia seguinte mesmo assim prontos para
adoçar trepadas na aurora, rabos luminosos
nos celeiros e nus no lago,
que foram foder em Colorado numa miriade de carros
roubados à noite, N.C. herói secreto destes
poemas, garanhão e Adonis de Denver — prazer ao
lembrar das suas incontáveis trepadas com
miúdas em terrenos baldios & pátios dos fundos de
restaurantes de beira de estrada, raquíticas
fileiras de poltronas de cinema, picos de montanha,
cavernas ou com esquálidas garçonetes no
familiar levantar de saias solitário à beira da
estrada & especialmente secretos solipsismos de
mictórios de postos de gasolina & becos da cidade
natal também,
que se apagaram em longos filmes sórdidos, foram
transportados em sonho, acordaram num
Manhattan súbito e conseguiram voltar com uma
impiedosa ressaca de adegas de Tokay e o horror
dos sonhos de ferro da Terceira Avenida & cambalearam
até as agências de emprego,
que caminharam a noite toda com os sapatos cheios de
sangue pelo cais coberto por montões de
neve, esperando que se abrisse uma porta no Bast River
dando num quarto cheio de vapor e ópio,
que criaram grandes dramas suicidas nos penhascos de
apartamentos do Hudson à luz de holofote
anti-aéreo da lua & as suas cabeças receberão coroas de
louro no esquecimento,
que comeram o ensopado de cordeiro da imaginação ou
digeriram o caranguejo do fundo lodoso dos
rios de Bovery,
que choraram diante do romance das ruas com os seus
carrinhos de mão cheios de cebola e péssima
música,


que ficaram sentados em caixotes respirando a
escuridão sob a ponte e ergueram-se para construir
clavicêmbalos nos seus sótãos,
que tossiram num sexto andar do Harlem coroado de
chamas sob um céu tuberculoso rodeados
pelos caixotes de laranja da teologia,
que rabiscaram a noite toda deitando e rolando sobre
invocações sublimes que ao amanhecer
amarelado revelaram-se versos de tagarelice sem
sentido,
que cozinharam animais apodrecidos, pulmão coração pé
rabo borsht & tortillas sonhando com o
puro reino vegetal,
que se atiraram sob caminhões de carne em busca de um ovo,
que atiraram os seus relógios do telhado fazendo o seu lance
de aposta pela Eternidade fora do Tempo & os
despertadores caíram nas suas cabeças por todos os
dias da década seguinte,
que cortaram os seus pulsos sem resultado por três vezes
seguidas, desistiram e foram obrigados a
abrir lojas de antiguidades onde acharam que estavam
ficando velhos e choraram,
que foram queimados vivos em seus inocentes ternos de
flanela em Madison Avenue no meio das
rajadas de versos de chumbo & o contido estrondo dos
batalhões de ferro da moda & os guinchos de
nitroglicerina das bichas da propaganda & o gás
mostarda de sinistros editores inteligentes ou foram
atropelados pelos táxis bêbedos da Realidade Absoluta,
que se lançaram da Ponte de Brooklyn, isto realmente
aconteceu e partiram esquecidos e
desconhecidos para dentro da espectral confusão das
ruelas de sopa & carros de bombeiros de
Chinatown, nem mesmo uma cerveja de graça,
que cantaram desesperados nas janelas, jogaram-se pela
janela do metro, saltaram no imundo rio
Passaic, pularam nos braços dos negros, choraram pela
rua afora, dançaram sobre garrafas
quebradas de vinho descalços arrebentando nostálgicos
discos de jazz europeu dos anos 30 na
Alemanha, terminaram o whisky e vomitaram gemendo no
toalete sangrento, lamentações nos
ouvidos e o sopro de colossais apitos a vapor,
que mandaram brasa pelas rodovias do passado viajando
pela solidão da vigília de cadeia do
Golgota de carro envenenado de cada um ou então a
encarnação do Jazz de Birmingham,
que guiaram atravessando o país durante setenta e duas
horas para saber se eu tinha tido uma visão
ou se tu tinhas tido uma visão ou se ele tinha tido
uma visão para descobrir a Eternidade,
que viajaram para Denver, que morreram em Denver, que
retornaram a Denver & esperaram em
vão, que espreitaram Denver & ficaram parados pensando
& solitários em Denver e finalmente
partiram para descobrir o Tempo & agora Denver está
saudosa dos seus heróis,
que caíram de joelhos em catedrais sem esperança
rezando pela sua salvação e luz e peito até que a
alma iluminasse o seu cabelo por um segundo,

que se rebentaram nas suas mentes na prisão
aguardando impossíveis criminosos de cabeça
dourada e o encanto da realidade nos seus corações que
entoavam suaves blues de Alcatraz,
que se recolheram ao México para cultivar um vício ou
as Montanhas Rochosas para o suave Buda
ou Tanger para os miúdos ou Pacífico Sul para a
locomotiva negra ou Harvard para Narciso para o
cemitério de Woodlawn para a coroa de flores para o
túmulo,

que exigiram exames de sanidade mental acusando o
rádio de hipnotismo & foram deixados com a
sua loucura & as suas mãos & um júri suspeito,
que jogaram salada de batata em conferencistas da
Universidade de Nova Iorque sobre Dadaísmo e
em seguida se apresentaram nos degraus de granito do
manicómio com cabeças raspadas e fala de
arlequim sobre suicídio, exigindo lobotomia imediata,
e que em lugar disso receberam o vazio concreto da
insulina metrasol choque eléctrico hidroterapia
psicoterapia terapia ocupacional pingue-pongue &
amnésia,
que num protesto sem humor viraram apenas uma mesa
simbólica de pingue-pongue, mergulhando
logo a seguir na catatonia,
voltando anos depois, realmente calvos excepto uma
peruca de sangue e lágrimas e dedos para a
visível condenação de louco nas celas das
cidades-manicómio do Leste,
Pilgrim State, Rockland, Greystone, seus corredores
fétidos, lutando com os ecos da alma,
agitando-se e rolando e balançando no banco de solidão
à meia-noite dos domínios de mausoléu
druídico do amor, o sonho da vida um pesadelo, corpos
transformados em pedras tão pesadas
quanto a lua, com a mãe finalmente ****** e o último
livro fantástico atirado pela janela do cortiço e
a última porta fechada às 4 da madrugada e o último
telefone arremessado contra a parede em
resposta e o último quarto mobilado esvaziado até à
última peça de mobília mental, uma rosa de
papel amarelo retorcida num cabide de arame do armário
e até mesmo isso imaginário, nada mais
que um bocadinho esperançoso de alucinação —
ah, Carl, enquanto tu não estiveres a salvo eu não
estarei a salvo e agora tu estás inteiramente
mergulhado no caldo animal total do tempo —
e que por isso correram pelas ruas geladas obcecados
por um súbito clarão da alquimia do uso da
elipse do catálogo do metro & do plano vibratório
que sonharam e abriram brechas encamadas no Tempo &
Espaço através de imagens justapostas e
capturaram o arranjo da alma entre 2 imagens visuais e
reuniram os verbos elementares e juntaram
o substantivo e o choque de consciência saltando numa
sensação de Pater Omnipotens Aeterni Deus,
para recriar a sintaxe e a medida da pobre prosa
humana e ficaram parados à sua frente, mudos e
inteligentes e trémulos de vergonha, rejeitados
todavia expondo a alma para conformar-se ao ritmo
do pensamento na sua cabeça nua e infinita,
o vagabundo louco e Beat angelical no Tempo,
desconhecido mas mesmo assim deixando aqui o que
houver para ser dito no tempo após a morte,
e se reergueram reencarnados na roupagem
fantasmagórica do jazz no espectro de trompa dourada
da banda musical e fizeram soar o sofrimento da mente
nua da América pelo amor num grito de
saxofone de eli eli lama lama sabactani que fez com
que as cidades tremessem até ao seu último rádio,
com o coração absoluto do poema da vida arrancado para
fora dos seus corpos bom para comer por
mais mil anos.

(Allen Ginsberg)

11/12/2012



É bem verdade que o mundo ta foda. 
São muitos perigos e abismos e pedras.


Mas um pouquinho de felicidade
pode brotar sem motivos do riso.   
Experimente.


Vá! pegue o violão, toque Beatles.

(Eliano Silva)

14/10/2012

A praga




Destruamos bibliotecas
Alcovas dos inquietos,
Indivíduos perigosíssimos.
Construamos em seu sítio baldio
Os templos religiosos,
Incomodarão menos que uma pedra no sapato impecável.
Vamos desabrigar esses poetas
Que ameaçam,
Que blasfemam,
Que atentam contra a sobrevivência
E falam sobre uma tal vida.

(Eliano Silva)

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