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05/01/2016

INDIGENTES



de acordo com as estatísticas,


todos os dias pelo menos uma poesia 


é assassinada nos cursos de Letras.


autópsias, dissecações,


sílabas métricas, análises... e nenhum sentimento


por aquelas defuntas infelizes.


(Eliano)

13/08/2015

DOIS DISCOS NEGROS NECESSÁRIOS LANÇADOS EM 2015


Dois artistas militantes negros nacionais nos presenteiam com seus trabalhos que podem ser chamados de manifestos contra a segregação, contra a discriminação e contra a opressão. 





Chico Cesar com seu cabelo crespo, duro e assanhado, há anos sem lançar disco, vem com “Estado de poesia”, engajado com os movimentos sociais, um álbum à esquerda. Seu característico jogo de linguagem, combinando fonemas e rimas e timbres... massa de tudo.

Na faixa 10, “Negão”, o Chico explica como ocorre o racismo no Brasil, melhor do que fazendo um desenho, da forma mais perigosa que uma opressão pode agir, silenciosa, sem alarde, assim é mais eficaz e difícil de ser combatida. “Negam que aqui tem preto, negão”, mas o preconceito no nosso país (racismo, machismo, LGBTfóbico) está enraizado na sociedade, nos costumes, mora nos detalhes, “nos cantos dos olhos, nas setas de indagação”, nas senhoras segurando as bolsas mais firme ao avistarem um negro passando, nos comentários disfarçados de boa intenção sobre sua pele ser “moreninha” e não negra e nos conselhos sobre seu cabelo que “ficaria mais bonito liso”...
Neste álbum, o Chico critica também os latifundiários “Reis do agronegócio”. Umas das canções mais extensas, não só desse disco, mas de toda a obra do cantor. Numa melodia corrida, é distribuída frases que mais parecem porradas de verdades na cara dos grandes empresários com suas empresas poluentes e que pouco se preocupam com o meio ambiente, cegos pelo lucro.

Ouçam ESTADO DE POESIA.

...

Emicida presta um serviço de necessidade pública. Um dos melhores artistas brasileiros da atualidade. O homem não para.

Merece um artigo sobre cada faixa do seu disco: “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa”. Tem África, tem favela, tem negro, tem gay,  tem revolta do oprimido contra o opressor, do colonizado contra o colonizador... Tem até “Passarinhos”.

Um disco mergulhado na luta contra as injustiças sociais e nas realidades dos jovens discriminados por sua condição, das mães solteiras cheias de forças que “amamenta enquanto enfrenta as guerra”. Sobre a juventude negra, que o Estado quer pôr em cadeias invés de fazer investimentos em educação, Emicida diz em “Boa esperança”: “Nessa equação, chata, policia mata? Plow! Médico salva? Não! Por que? Cor de ladrão” e assim vamos exterminando negros, "acidentalmente".
Um álbum em primeira pessoa, e o eu-lírico está cansado do descaso e da injustiça, mas é otimista, tem brilho e sangue nos olhos. Nesse disco, falam os negros, os pobres, as mulheres... “Chega! Sou voz das nega que integra resistência/ Truta rima a conduta, surta, escuta, vai vendo/ Tempo das mulher fruta, eu vim menina veneno/Sistema é faia, gasta, arrasta Cláudia que não raia/ Basta de Globeleza, firmeza? Mó faia!”


Para mim, não há nada que explique tanto o Brasil de hoje como EMICIDA. Fato!!!


(Eliano Silva)

29/06/2015

Pensamentos e cidades

Os pensamentos são como cidades.
Ambos são reabitáveis:

A gente emigra de nossa cidade
e outras pessoas veem habitá-la,
a gente abandona nossos pensamentos
e outras pessoas os pensarão.

Há pessoas que nunca saem das suas cidades.


(Eliano Silva)

20/06/2015

Os becos de meu bem


Já me perdi muitas vezes na buceta de meu amor,
Que é labirinto.
Que paz eu sinto
Perdido entre as curvas do seu priquito.
São tantos os mistérios nas vielas molhadas do seu corpo.
De todos os percursos da vida.
Aqueles caminhos são os que me levam
Sem que eu precise desconfiar.
Atravessar suas ruas inteiras de olhos fechados.
Amo me enfiar
Nos becos do meu bem.
E ficar escondido ali
E num gozo de alguns segundos
Me isolar do mundo,
Que é selva.

(Eliano Silva)

24/03/2015

Tão Devagar



Acorda pra sonhar,/ de noite vadiar/ 
com uma turma legal,/ conheço o pessoal./ 
Quem vai te/ convencer/ a ir pro carnaval?/ 
Recife ou no Rio?/ Será que você viu/ 
que hoje tem sarau/ na praça da matriz?/ 
Palhaço, ator, atriz,/ amigos de Natal.

Tenho pressa pra andar tão devagar,/ 
não ter lugar para chegar/ 
e assim ir ao além do além./ 
Antes que você me pergunte/ 
se eu já paguei as contas do mês/ outra vez...

Acorda pra sonhar,/ se apronte pra partir/ 
antes que a solidão/ venha nos alcançar./ 
Se ela perceber/ o/ seu desparecer,/ 
só pense quando não/ quiser se arrepender.

Tenho pressa pra voar como um condor/ 
do Arpoador ao Ceará/ numa revoada sobre o mar.
Antes que você se perturbe/ 
com as coisas que há por fazer/ quem vai te convencer?

(Eliano)

15/09/2014

Desabafo de uma mulher mal comida







Seu amor puritano
Não te deixa ver a puta
Que há em mim, não me deixa admitir.
Você se nega a me comer,
Com essa história de fazer amor
Quando vamos gozar sem pudor?
Você se nega a me foder
E diz que sou uma dama, que me ama
Que mereço respeito.
E toca tão sem jeito nos meus peitos.


E vai pra rua se orgulhar de mim
Dizer que sou assim
Como uma esposa deve ser.
E eu aqui, presa nesse andor de santa.
Com um amor tão lindo
Que não serve nem pra me fazer gemer.


Pecado é morrer quando ainda se pode respirar.
O amor é um crime passional.
Eu sei! Você é bem melhor com suas amantes,
Minha boceta não é de enfeite.
Dê a elas os diamantes

E a mim, seu pau.


Eliano Silva



07/07/2014

Música para ouvir depois da chuva

Uma dessas canções que a gente faz em um fim de tarde úmido de chuva fraca. A letra curta e a melodia singela cantada em sussurros ao violão, reflete a calmaria do cotidiano que os poetas captam tão sensivelmente e a transformam em arte. Poeta é um tipo de alquimista que converte monotonia em poesia; meninos se banham nos pingos de chuva; senhoras espreitam das janelas; funcionários trabalham ainda; alguns, sentados na sala, assistem TV. Eu? Dedilho violões. 

 Antes que eu não possa mais cantar vou cantar
até não puder mais. 

Eu insisto em ser poeta, meu bem.
Quero escrever mais mil cadernos. 

Berrar como se deve, 
largar o que não me serve, 
morrer só se for de amores. 

O vento empurra a janela 
e a retina se adapta. 
A brisa acalma, meu bem 
a alma, acalma. 

(Eliano Silva)

04/07/2014




Não vê quando calo
disparo olhares
reparo lugares 
velejo nos mares
nos bares desejo
mais álcool e limão?
Não vê que perdido
fitando vazios 
a boca silencio
pensando confusão?
Não vê que não digo
porque é pecado
eu sou um perigo
posso querer que
venha pecar comigo?


(Eliano Silva)







Calmamente
a monotonia mata a gente.
Calma, mente!

(Eliano Silva)




14/06/2014

Pedagogia do discriminado



A gente precisa
marginalizar a educação
pra educar o marginal.
Literatura nas favelas
em vez de policial.

Assaltar à mão armada com poesia
em tudo que é beco e viela
até viciar cada criança dia após dia.

A gente precisa
poetizar a monotonia
e "monotizar" a poesia.

Crime?
Só o de subversão.
Paz?
Só depois da confusão.

Que ao revistarem nossas mochilas
somente livros venham ao chão.
E pela primeira vez nossas armas
as deles abaterão.

Que as prisões venham à falência,
que a violência seja no sarau.

Que a turma da boca
abra a boca
e rasgue o verbo
com a língua de punhal.

Que o menino franzino
e preto cause medo
pelo perigo que é transportar
no bolso do calção desbotado
algum verso clandestino
num papel amassado. 

A gente precisa
tirar a escola das salas de aulas
e fazer de sala de aula qualquer calçada.

Que a pele queimada
pelo sol quente
do menino sem camisa
possa ser sua farda
e que a única exigência
seja seu riso gratuito.

Mãos pra o alto.
Calma, leitor.
Isso não é um assalto.
É apenas um aluno
com dúvida no assunto
perguntando ao professor.

(Eliano Silva)


13/04/2014



você fica tão bela
quando se deixa
a toa na janela.
uma flor do mato te admirando
e você admirando ela.

(Eliano Silva)


Faltou energia 
elétrica na rua.
A música era dos
grilos e gias,
e lua por todo canto.


(Eliano Silva)

10/04/2014

Na beira de água nova



Chuvas de verão
aqui pra nós é inverno.
Sapinhos que vêm do açude
pulam direto pra esse caderno.

(Eliano Silva)

02/04/2014

Sem dores, sem cores



A poesia está crua ainda.
Não passa de um amontoado
de frases a esmo.
Pode ser que não sejam
inteiramente maus os seus versos,
mas guarde-os no bolso.

A poesia tem que ter
marcas da sua última surra.
Um poeta sem dores
escreve sem paixão.

A poesia não é hobby nem profissão.
É um parto.
É a condição.

(Eliano Silva)

31/03/2014

Primeiro do 4



Já que 
Abril,
Entre!

(Eliano Silva)


Quem divide a vida em profissional
e pessoal é o engenheiro civil.
O poeta: Fez a misturada,
botou limão e se serviu.


Eliano Silva

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